Dia Internacional da Mulher: a luta de ribeirinhas unidas em associação para fortalecer seu papel nas comunidades

Por meio da ASMAMJ, parceira no Programa Território Médio Juruá, mulheres fazem capacitação e participam de ações de geração de renda.

Mulheres ribeirinhas que vivem em comunidades ao longo do rio Juruá, no município de Carauari, vêm, nos últimos anos, buscando fortalecer seu papel. Para isso, contam com a Associação das Mulheres Agroextrativistas do Médio Juruá (ASMAMJ), que desenvolve um trabalho de apoio e incentivo a projetos voltados e desenvolvidos por elas.

Com cerca de 160 associadas, a ASMAMJ representa, na prática, a luta histórica comemorada em 8 de Março, no Dia Internacional das Mulheres, pela busca de condições equiparadas às dos homens em uma região no estado do Amazonas onde somente é possível chegar de barco, depois de seis dias de viagem desde a capital Manaus, ou de avião.

Tradicionalmente, mulheres ribeirinhas, indígenas e quilombolas desempenham atribuições fundamentais na gestão ambiental e na conservação da biodiversidade da Amazônia. Além de cuidar de suas casas e participar de atividades comunitárias, algumas exercem posições de liderança e complementam a renda da família, trabalhando em cadeias de valor sustentáveis ou usando recursos naturais.

Porém, apesar desse papel central, há um histórico de desvalorização do trabalho feminino. Muitas ainda são marginalizadas nos processos de tomada de decisão de suas comunidades. Também são elas as mais afetadas entre os grupos vulneráveis no que se refere ao enfrentamento de impactos das mudanças climáticas, que agravam as desigualdades, incluindo as de gênero.

“Queremos implantar projetos que tragam cada vez mais visibilidade, empoderamento, renda e união. Que as ribeirinhas possam se auto reconhecer como mulheres fortes, que não vão mais abaixar a cabeça ou fazer do seu silêncio um refúgio para uma sociedade machista. Pretendo incentivá-las a se sentirem importantes e engajadas para que entendam que podem e conseguem ser o que quiserem”, diz Rosângela Cunha de Lima, moradora da comunidade São Raimundo, e recém eleita presidente da ASMAMJ.

A associação é uma das organizações comunitárias locais que participam do Programa Território Médio Juruá (PTMJ) como implementadoras de ações, juntamente com ASPROC, AMECSARA, AMARU, CODAEMJ e ASPODEX.

Coordenado pela SITAWI, o PTMJ tem como parceiros estratégicos a USAID/Brasil, a Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) e a Natura. Conta, ainda, com a participação da Aliança Bioversity/CIAT, do ICMBio, da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA) e da OPAN.

“A região do Médio Juruá tem uma linda história de luta e superação em busca de direitos e de melhor qualidade de vida. Porém, as mulheres não apareciam, mesmo desempenhando papéis importantes. Por isso, é um orgulho chegar à presidência da ASMAMJ, uma jovem que representa um grupo de mulheres que desde o princípio adotou como ‘grito de guerra’ o pedido de reconhecimento. A associação hoje une as mulheres e continua aquela história, mas com elas como protagonistas”, afirma Rosângela.

Com grande influência em sua formação vinda da mãe e do avô, a nova presidente da ASMAMJ destaca o manejo comunitário e sustentável do pirarucu como uma forma de alavancar a participação das mulheres nas comunidades.

Além do trabalho que elas já desenvolvem na evisceração do pescado, agora buscam treinamento para participar da contagem do pirarucu – etapa importante do manejo para definir a quantidade de peixe que cada comunidade terá direito a comercializar por ano – e para desenvolver biojóias a partir das escamas.

“Moramos e preservamos uma floresta rica em recursos naturais que podem gerar renda para as mulheres. Pretendo incentivá-las e buscar novas cadeias produtivas, além de inovar algumas que já existem. O manejo comunitário do pirarucu, por exemplo, é uma atividade existente no Médio Juruá desde 2011, mas as escamas do peixe eram desperdiçadas no rio. As mulheres viram nelas uma forma de ganhar dinheiro, transformando-as em biojoias. Este é um exemplo de projeto de geração de renda a ser incentivado”, complementa Rosângela.

Futuro – O coordenador de Programas Territoriais da SITAWI, Felipe Pires, destaca que ações de extração de óleos essenciais de sementes da Amazônia e da produção de biocosméticos serão incrementadas com o apoio do Programa Território Médio Juruá.

“A perspectiva para esta nova fase do PTMJ é fortalecer ainda mais o empreendedorismo feminino, diversificando a produção e trazendo novas oportunidades de geração de renda para a ASMAMJ. Destaco aqui a produção de óleos essenciais e biocosméticos, utilizando da rica biodiversidade disponível na região”, afirma Pires.

Para Rosângela, o PTMJ, ao incentivar iniciativas na região, ajuda as comunidades a se fortalecerem e buscarem resultados positivos, com reflexo na conservação da floresta.

O PTMJ visa contribuir com o desenvolvimento sustentável do Médio Juruá, cobrindo uma área de mais de 1.020.000 hectares, com duas unidades de conservação (Resex Médio Juruá e RDS Uacari) e parte do Território Indígena Deni do Rio Xeruã. Está estruturado em três pilares integrados: meios de vida sustentáveis, conservação da biodiversidade e coesão social.

Segundo ela, uma forma de vencer o preconceito e mudar o padrão masculino adotado pela sociedade é incentivando a participação das mulheres na tomada de decisões e no dia a dia das comunidades. “A presença feminina sempre muda um ambiente. Mas modifica ainda mais quando sua voz deixa de ser um silêncio. A mulher é um ser que cria, protege, cuida e dá vida a outras vidas. Dessa mesma forma, ela assume um papel na conservação da floresta e sabe que é de lá que tira seu sustento e de sua família”, resume.

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