A Mata Atlântica é um dos 36 hotspots mundiais de biodiversidade. Figura entre as regiões mais ricas do planeta em diversidade de espécies, muitas delas exclusivas da localidade e inúmeras espécies ameaçadas de extinção. Restam atualmente menos de 25% de sua cobertura florestal original e pouco mais de 10% desse território altamente fragmentado é classificado como floresta madura. Apesar disso, a Mata Atlântica está incluída entre 33 ‘dark spots’, áreas com grande déficit de amostragem da sua biodiversidade, o que torna os esforços de coleta botânica uma prioridade crítica.
Reverter este cenário depende, em parte, da qualidade da restauração ecológica realizada no país. No entanto, esse nível de excelência continua sendo um desafio significativo. Muitos plantios ainda utilizam uma seleção limitada de espécies pioneiras de rápido crescimento, falhando em reintroduzir a diversidade necessária para que a floresta se desenvolva de forma autônoma ao longo do tempo.
Para o Viveiro Muda Tudo, iniciativa socioambiental sediada em Petrópolis, no Rio de Janeiro, esse problema é estrutural. No setor de restauração ecológica, a muda nativa é frequentemente tratada como mero insumo a ser adquirido pelo menor custo possível, e não como organismo vivo com valor genético e ecológico intrínseco. Essa lógica de mercado leva à produção em larga escala de pouquíssimas espécies, oriundas de uma base restrita de árvores-matrizes. Embora reduza os preços unitários, a prática compromete severamente a resiliência ecológica de longo prazo e a biodiversidade da floresta restaurada.
Uma atuação que já nasceu com base em ciência e território
O viveiro Muda Tudo foi projetado especificamente para preencher a lacuna crítica deixada pela prioridade dada ao preço. Estabelecida em 2016, a iniciativa funciona como um centro de pesquisa descentralizado que realiza expedições botânicas, mapeia fontes de sementes (árvores-matrizes), deposita espécimes botânicos em herbários e mantém um banco de dados fenológicos – precisamente o trabalho científico, conduzido em parceria com pesquisadores de diferentes instituições, que fica de fora da conta quando as mudas são comercializadas como meras mercadorias. Em paralelo à pesquisa, o projeto promove palestras, oficinas e atividades culturais à mobilização da comunidade em torno da restauração ecológica e de temas direta ou indiretamente relacionados.

Uma estrutura para dar escala à pesquisa
É para dar maior sustentação a essa atuação que nasce o Fundo Filantrópico Viveiro Muda Tudo, em parceria com a Sitawi Finanças do Bem.
Pesquisa de campo contínua, expedições recorrentes e manutenção de bancos de dados fenológicos fazem parte de uma estratégia de longo prazo que amplia o impacto do viveiro para muito além da produção de mudas. Para fortalecer e garantir maior sustentabilidade a essa operação, o Fundo Viveiro Muda Tudo conta com a gestão financeira e filantrópica estruturada da Sitawi Finanças do Bem, que atua como fiscal sponsor (gestora e patrocinadora fiscal) da iniciativa, assegurando padrões consolidados de governança e contribuindo para a transparência na alocação e na prestação de contas dos recursos.
Na prática, isso significa que o Viveiro pode acessar financiamento nacional e internacional com a segurança institucional que doadores de maior porte costumam exigir, sem lidar com questões fiscais e regulatórias.
Para Bárbara Pellegrini, fundadora do Viveiro Muda Tudo, a criação do Fundo é um passo importante para dar sustentação ao trabalho que já é realizado há anos. “O Fundo nasce da compreensão de que a restauração ecológica da Mata Atlântica precisa ir além da produção de mudas. Para que uma floresta volte a existir com autonomia, é preciso conhecer profundamente as espécies, suas matrizes, seus ciclos, suas relações com a fauna e com o território. Estamos muito felizes com a parceria com a Sitawi, porque ela nos permite estruturar esse Fundo com governança, transparência e segurança para quem deseja apoiar nosso propósito”, afirma.
Fernanda Pessoa, Gerente Sênior de Gestão de Filantropia da Sitawi Finanças do Bem, reitera a importância dos mecanismos da filantropia para a biodiversidade. “Projetos como o Viveiro Muda Tudo mostram como a restauração ecológica depende, muitas vezes, de estruturas que consigam financiar também o que não aparece no preço da muda: pesquisa, gestão, conhecimento técnico, mobilização territorial e continuidade. Para nós, essa parceria reforça o papel da filantropia como instrumento para viabilizar soluções ambientais enraizadas nos territórios e conectadas aos desafios da conservação da biodiversidade”, declara.
Por trás do nome Muda Tudo está uma certeza: a de que não existe restauração ecológica duradoura sem uma mudança mais ampla nos valores que orientam a conduta humana. É um projeto pensado para ser pequeno e enraizado em seu território e, justamente por isso, replicável em outros lugares que enfrentem o mesmo problema.
O Muda Tudo também está conectado ao Hub de Negócios Regenerativos UMMA, uma rede que reúne iniciativas e profissionais dedicados a impulsionar o impacto regenerativo, o fortalecimento de capacidades locais, redes colaborativas, economias circulares e estratégias territoriais. Para o viveiro, essa participação amplia o diálogo com outras organizações que também buscam aproximar conservação, regeneração, cultura e desenvolvimento local.