Geração de renda e empoderamento feminino: mulheres ribeirinhas apostam na produção de biocosméticos

Oficinas promovem a capacitação de 50 mulheres na região do Médio Juruá para a geração de produtos a partir de matérias-primas locais

Nos dias 24 e 25 de maio, foram realizadas oficinas de saboaria artesanal e produção de biocosméticos na comunidade Novo Horizonte, localizada na Reserva Extrativista Médio Juruá, no Amazonas. Valorizando matérias-primas locais, como os óleos de andiroba e açaí, a manteiga de murumuru e o urucum, as oficinas tiveram como objetivo trazer conhecimentos necessários para a produção de produtos voltados à higiene e bem-estar, como sabonetes, velas aromatizantes, shampoos e condicionadores biodegradáveis. Os eventos contaram com 50 participantes, representando 21 comunidades distribuídas ao longo do Rio Juruá.

Com cerca de 160 associadas, a Associação das Mulheres Agroextrativistas do Médio Juruá (ASMAMJ) é a organização implementadora deste projeto, envolvida desde a primeira fase do Programa Território Médio Juruá (PTMJ). A iniciativa vem trabalhando para o desenvolvimento de novas cadeias produtivas sustentáveis para mulheres ribeirinhas, além do aumento da visibilidade e participação das mesmas em espaços de tomadas de decisão em nível territorial.

Por meio da contratação de uma consultoria técnica e da logística apoiada pelo PTMJ, as oficinas foram um primeiro passo para o objetivo de desenvolver um polo de produção de saboaria e cosméticos naturais, trazendo mais uma oportunidade de geração de renda para a região. Dessa forma, a ASMAMJ está trabalhando para dar seguimento na produção e comercialização de cosméticos naturais a partir de nove produtos ensinados durante os dois dias da oficina.

Desafios locais  

Segundo Quilvilene Cunha, tesoureira da ASMAMJ, o maior desafio do Médio Juruá para realizar quaisquer atividades nas comunidades é a logística. Pela distância entre as comunidades, o custo de uma viagem pode ficar muito alto. Nesse sentido, a articulação e o apoio de parceiros como os do PTMJ têm sido fundamentais.

Além da logística, outro fator que influencia a produção destes produtos é a necessidade de adaptação dos processos da cadeia produtiva. Em algumas comunidades, como a de Novo Horizonte, não se realiza a extração de óleos vegetais. Logo, as mulheres coletam as sementes e frutos e enviam para outra comunidade que faz o processo da extração.

Considerando todos os fatores particulares e o isolamento dessas comunidades, a metodologia desenvolvida para a realização das oficinas focou na valorização das matérias-primas locais e na heterogeneidade do grupo, adaptando as formas de produção à realidade local e aos distintos níveis de conhecimento. É o que explica Karina Schulz Borges, consultora convidada para facilitar as capacitações:

“Ao conversar com as mulheres da ASMAMJ, fui buscando adaptar a metodologia a um formato simplificado, porém muito rico culturalmente, trazendo ingredientes regionais, como o murumuru, a andiroba e a castanha de cutia, para trazer mais autenticidade para os produtos e aumentar a capacidade de produção. Utilizamos elementos como a goma de tapioca em desodorantes, o cumaru para aromatizar velas, a resina de breu nas massas dos sabões, o urucum para produzir batom, dentre outras possibilidades”.

Para complementar o ensino e possibilitar o acesso a mais mulheres, também foram  produzidas cartilhas e vídeos para contribuir com as orientações no desenvolvimento dos produtos. 

Perspectivas para o futuro

Com o objetivo maior de promover e expandir a atividade, gerando mais renda para as comunidades, a produção e a comercialização de biocosméticos têm o potencial de alavancar também outros importantes benefícios às mulheres, que tradicionalmente já representam uma força fundamental nas cadeias produtivas sustentáveis.

“O que ficou muito marcante é ver como elas se encantavam com a capacidade delas de transformar a matéria-prima que elas têm de forma acessível na floresta. Isso gera empoderamento e melhora a autoestima das mulheres, que passam a enxergar a possibilidade de produzir, consumir e, ao mesmo tempo, comercializar produtos biodegradáveis de qualidade excelente, diferentes do que se vê no mercado”, destaca Karina.

Para Quilvilene, o sucesso da atividade representa, além da conquista de autonomia financeira, a melhoria da qualidade de vida e novas oportunidades para essas mulheres. “Outro fator que considero importante são os aprendizados adquiridos, a troca de experiência que existem entre elas durante cada encontro. Entendemos que, quando se trabalha empreendedorismo, estamos contribuindo também para o empoderamento feminino. É uma oportunidade de ganhar conhecimento e conhecimento é poder”, explica.

Ao final deste projeto, a ASMAMJ pretende comercializar os produtos nas comunidades e no município de Carauari, além de futuramente também investir na venda online, através de uma página exclusiva. A comunidade Novo Horizonte será o polo de produção que vai desenvolver esse trabalho, que, além de priorizar o extrativismo sustentável e as matérias-primas da biodiversidade local, oferece produtos com fórmulas naturais para a pele, que não agridem o meio ambiente e valorizam, assim, os saberes locais e a geração de renda para as mulheres ribeirinhas. 

Sobre o PTMJ

Coordenado pela SITAWI, o PTMJ tem como parceiros estratégicos a USAID/Brasil, a Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) e a Natura. Conta, ainda, com a participação da Aliança Bioversity/CIAT, do ICMBio, da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA) e da OPAN.

Sobre a ASMAMJ

A Associação das Mulheres Agroextrativistas do Médio Juruá (ASMAMJ) é uma das organizações comunitárias locais que participam do Programa Território Médio Juruá (PTMJ) como implementadora de ações, juntamente com ASPROC, AMECSARA, AMARU, CODAEMJ e ASPODEX. 

A ASMAMJ é composta por mulheres ribeirinhas que vivem na RESEX do Médio Juruá, RDS Uacari e da área de entorno dessas Unidades de Conservação.

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