O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) já deu o alerta vermelho: o mundo pode atingir um aumento de 1,5 °C na temperatura global até 2030, com impactos extremamente negativos para a fauna, a flora e, sobretudo, para as pessoas mais vulneráveis do planeta. No Brasil, esse cenário deixou de ser abstrato. As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, a maior seca dos últimos 70 anos, e a passagem de um tornado pelo Paraná em 2025 mostram que os eventos climáticos extremos já fazem parte da nossa realidade.
Reconstruir a vida depois desses eventos é ainda mais complexo quando se considera que recortes como gênero, idade, raça e etnia se cruzam e se somam às desigualdades já existentes. É por isso que falar em ação climática, hoje, significa necessariamente falar em justiça climática.
O que é justiça climática
Justiça climática é o conceito que reconhece que a crise climática não afeta todas as pessoas da mesma forma. Os impactos das mudanças climáticas se distribuem de maneira desigual, aprofundando desigualdades sociais, econômicas e ambientais que já existiam antes da crise. O conceito propõe uma resposta justa e equitativa, que leve em conta as disparidades entre diferentes grupos, principalmente aqueles que menos contribuíram para o problema, mas que são os mais expostos aos seus efeitos.
Segundo o Banco Mundial (2023), cerca de 19% da população brasileira vive em municípios de alto risco ambiental, 8% em áreas de elevada vulnerabilidade socioeconômica, e 2% estão expostos simultaneamente aos dois fatores. Esses números reforçam algo essencial: entender o impacto real das mudanças climáticas em cada território exige cruzar dados sociais, econômicos e ambientais, não analisá-los isoladamente.
Um impacto que não é igual para todos
As populações mais vulneráveis, como as que vivem em regiões de baixa renda, áreas costeiras e países em desenvolvimento, enfrentam os maiores riscos de desastres naturais, apesar de serem as que menos contribuíram historicamente para o aquecimento global. Enchentes, secas e ondas de calor agravam a pobreza, a insegurança alimentar e a falta de acesso à água e à saúde, aprofundando desigualdades que já estavam ali.
Esse desequilíbrio tem nome: racismo ambiental. Trata-se da distribuição desigual de ônus e benefícios ambientais entre comunidades, atingindo com mais força povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e populações negras, que costumam viver em áreas com maior exposição à poluição e a riscos ambientais, e menos acesso a recursos para se proteger e se adaptar.
A responsabilidade histórica também é parte central desse debate. Os países industrializados, que mais emitiram gases de efeito estufa ao longo de décadas, têm o dever de liderar os esforços de redução de emissões e de apoiar financeira e tecnicamente os países em desenvolvimento, justamente aqueles que mais sofrem com impactos que ajudaram menos a criar.
Caminhos concretos para promover a justiça climática no Brasil
Promover justiça climática exige medidas em várias frentes ao mesmo tempo. Entre as mais urgentes estão a garantia de participação pública e acesso à informação climática, a centralização das questões de raça, classe e gênero no enfrentamento ao racismo ambiental, e a garantia efetiva dos direitos de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, especialmente por meio da demarcação de terras e da gestão ambiental adequada desses territórios.
Também é fundamental ampliar a sustentabilidade a partir da garantia de direitos sociais e econômicos básicos, como renda justa, segurança alimentar, acesso à saúde e à água, já que esses fatores são a base da resiliência climática, ou seja, da capacidade de comunidades se recuperarem diante de eventos extremos. Ao mesmo tempo, a transição energética verde precisa avançar com atenção redobrada. Projetos de energia eólica e solar, embora preferíveis a combustíveis fósseis, podem gerar impactos socioambientais negativos em sua cadeia produtiva, e o licenciamento ambiental deve considerar essa complexidade caso a caso.
Justiça climática também é uma questão de gênero
As mudanças climáticas afetam mulheres de forma desproporcional, especialmente nas comunidades mais pobres, onde elas costumam ser as principais responsáveis por garantir acesso a água e alimentos para suas famílias. Abordar a justiça climática com uma lente de gênero — e de forma interseccional — é condição para que as soluções propostas sejam, de fato, inclusivas e eficazes.
O papel do financiamento climático
Recursos financeiros direcionados à mitigação e à adaptação às mudanças climáticas são essenciais para que países em desenvolvimento consigam reduzir emissões, desenvolver tecnologias limpas e fortalecer sua resiliência a desastres naturais. Esse financiamento pode vir de governos, instituições internacionais e também do setor privado. E é justamente nesse ponto que mecanismos como o blended finance ganham relevância, ao combinar capital público, filantrópico e privado para viabilizar projetos que, sozinhos, dificilmente sairiam do papel. Direcionar recursos de forma estratégica, com atenção às comunidades mais vulneráveis, é parte essencial de qualquer agenda séria de justiça climática.
Mecanismos financeiros inovadores como parte da solução
Diante da urgência climática, capital público e filantrópico sozinhos não são suficientes para financiar toda a transformação necessária. É preciso desenhar mecanismos financeiros inovadores capazes de atrair e combinar diferentes fontes de recurso em torno de projetos com impacto socioambiental real.
É nesse espaço que a Sitawi Finanças do Bem atua: estruturando soluções financeiras que conectam capital e financiadores a iniciativas voltadas à justiça climática, sempre com atenção às comunidades mais vulneráveis e aos territórios mais expostos aos riscos climáticos.
Entenda porque o financiamento climático ainda não chega aos territórios
Grandes projetos de energia e infraestrutura concentram a maior parte do capital em financiamento. A lógica do mercado tende a favorecer empresas maiores e estruturas formais. Já os negócios que atuam em prol das comunidades e que protegem os biomas não competem nesse campo, e ainda contam com poucos instrumentos financeiros adequados à sua realidade.
Para analisar, entender e propor mudanças, a Climate Ventures e a Sitawi Finanças do Bem desenharam uma proposta de um novo modelo financeiro criado para redistribuir poder e garantir que o capital chegue a quem realmente protege os nossos biomas.

Perguntas frequentes
É o conceito que reconhece que os impactos da crise climática não afetam todas as pessoas da mesma forma, propondo respostas justas e equitativas que considerem as desigualdades sociais, econômicas e ambientais entre diferentes grupos.
É a distribuição desigual de ônus e benefícios ambientais entre pessoas e comunidades, atingindo com mais força povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e populações negras.
Porque o país combina grande biodiversidade e forte desigualdade social, o que faz com que eventos climáticos extremos afetem de forma desproporcional as populações mais vulneráveis, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
Direcionando recursos para projetos de mitigação e adaptação que priorizem as comunidades mais expostas aos riscos climáticos e menos responsáveis historicamente pelo problema.