Oficina ofertada pela Sitawi, através do projeto Man Gap, tem objetivo de capacitar povos indígenas do Mato Grosso a gerenciar Fundo Rotativo Solidário

Uma oficina de educação financeira reuniu mais de 70 pessoas dos territórios indígenas dos Povos Zoró, Apiaká, Kayabi e Munduruku no Mato Grosso. A iniciativa faz parte do projeto Man Gap, desenvolvido pela Associação do Povo Indígena Zoró Pangyjej – APIZ.

A Oficina de Finanças para gestão do Fundo Rotativo Solidário Indígena foi ministrada por representantes da Sitawi e do projeto Man Gap e teve como objetivo levar conhecimento financeiro para capacitar as comunidades e lideranças indígenas que vão receber e administrar o Fundo Rotativo, voltado para o desenvolvimento da cadeia de valor da castanha da Amazônia, através da construção e o aprimoramento das fábricas beneficiadoras dessa amêndoa, que estão sendo criadas nesses territórios.

Oficina de finanças da Sitawi, através do projeto Man Gap, para capacitar povos indígenas do Mato Grosso a gerenciar Fundo Rotativo Solidário.

Entre os avanços do projeto, destaca-se a estruturação do Fundo Rotativo Solidário Indígena, conduzida pela Sitawi Finanças do Bem, que contará com aporte inicial do Programa REM MT e visa fornecer suporte financeiro a esses povos, promovendo o capital de giro necessário para a execução das ações do projeto. O objetivo é apoiar as organizações produtivas das comunidades a longo prazo, promovendo sua autonomia financeira e sustentabilidade em atividades produtivas — especialmente aquelas relacionadas à castanha da Amazônia.

“A oficina de finanças foi fundamental para nossa gestão. A gente conseguiu entender um pouco como acontece, como funciona essa questão de gerenciamento do recurso. É muito importante e está mostrando um resultado muito positivo para o povo Zoró. Isso nos fortalece cada vez mais, que estamos na diretoria da associação. É algo inédito para nosso povo”, comenta Alexandre, liderança indígena da Associação do Povo Indígena Zoró Pangyjej – APIZ.

A oficina

Durante a oficina foi possível ter trocas e ensinamentos sobre finanças, com foco no demonstrativo de fluxo de caixa e as contas que o compõem como receitas, custos, despesas e margens de lucro. Com isso os participantes puderam ter uma visão mais estratégica e pensar em uma precificação adequada para cada produto, para gerar, assim, mais renda para os povos indígenas extrativistas de castanha.

A metodologia participativa garantiu que os resultados não se concentrassem apenas nos líderes, mas em toda a comunidade, construindo um conhecimento coletivo para que eles consigam se ajudar de maneira efetiva.

“Um dos ensinamentos mais interessantes foi sobre a necessidade e a importância de ter o cenário real e não o ideal, para termos um fluxo de caixa condizente com a realidade da cooperativa ou da organização. Conseguimos entender a importância da análise de cada fluxo para chegar no resultado, com uma educação financeira mais apropriada para a nossa realidade” comenta Lígia Neiva, Técnica da Funai CTL Rondolândia/MT, que atua com o Povo Zoró há 35 anos nas frentes de etnodesenvolvimento, serviços sociais e educação.

A importância da castanha

A principal vantagem da construção das fábricas de beneficiamento da castanha nos territórios é o aumento da renda e da autonomia das comunidades extrativistas. Segundo os cálculos realizados durante as oficinas, a castanha processada vale dez vezes mais que a in natura — como é vendida atualmente. 

Segundo Ana Beatriz Villela, coordenadora sênior de Investimento de Impacto da Sitawi, a oficina pôde deixar claro o aumento na renda para as famílias das comunidades. “A importância foi mostrar o valor dessas agroindústrias para o território porque eles não sabiam o quanto elas podem impactar financeiramente. Conseguimos mostrar com dados, números e exemplos a diferença entre vender a castanha in natura e a beneficiada. Eles puderam se apropriar do projeto e ter a perspectiva de condições melhores através dele”, destaca.

João Montenegro, analista de Investimento de Impacto da Sitawi destaca a importância da multiplicação de riqueza através de produtos orgânicos da sociobiodiversidade para essas pessoas. “Esse é um sonho antigo dos povos. Eles disseram nas oficinas que essas fábricas já eram sonhadas pelos seus pais, avós, que sempre viveram nesse contexto da venda in natura e sempre quiseram sair disso, ter uma perspectiva melhor. E a coisa mais importante de tudo foi manter o protagonismo indígena na gestão dessas fábricas e desse Fundo. Sabíamos que não faria sentido trazer pessoas não-indígenas para cuidar disso”, reforça.

Esforços coletivos que garantem a mudança

As iniciativas foram viabilizadas pelo Programa REM MT, uma contribuição dos governos da Alemanha e do Reino Unido, que beneficia aqueles que contribuem com ações de conservação da floresta. Ana Beatriz ressalta a importância da conexão entre as comunidades indígenas e as iniciativas governamentais e filantrópicas que objetivam fomentar a conservação da floresta e o desenvolvimento socioambiental do território.

“Por meio dessas iniciativas, é possível contribuir com a manutenção da floresta em pé, promovendo a autonomia dos povos indígenas, considerando suas especificidades culturais e tradicionais”, comenta. O envolvimento de diferentes atores e a união de esforços e recursos, tanto do setor privado quanto governamental, são imprescindíveis para garantirmos um futuro mais sustentável.


“A geração dessa riqueza localmente potencializa a economia, direta e indiretamente, favorecendo uma rede de pequenos negócios, que prestam serviços e ou comercializam produtos para os indígenas, multiplicando este capital dentro da mesma região onde a castanha é produzida. Este é o conceito de economia sustentável: cadeias de valor desenvolvidas com baixa emissão de Gases de Efeito Estufa GEE, favorecendo o consumo local de produtos orgânicos e de alto valor nutricional pela população da região, inclusão de gênero e geracional, inclusão social e principalmente, garantindo a conservação deste patrimônio natural que é a floresta amazônica”, comentou Paulo Nunes, coordenador do Projeto Man Gap. 

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