Os produtos naturais que tanto amamos percorrem um longo caminho antes de chegarem às nossas prateleiras na forma de cosméticos. Um exemplo disso é a andiroba, ingrediente essencial em hidratantes, sabonetes e óleos corporais.
No coração do Médio Juruá, um território que fica a mais de 700 km da capital do Amazonas, antes mesmo de se tornar um ingrediente cosmético, a andiroba é usada para fins medicinais há séculos. Descoberta pelos povos indígenas, suas propriedades analgésicas, cicatrizantes e anti-inflamatórias são reconhecidas.
Mas sua história vai muito além dos seus benefícios medicinais: ela representa uma cadeia de valor sustentável que une conhecimento tradicional, conservação da floresta e geração de renda para comunidades locais.
As oleaginosas do Médio Juruá
O Médio Juruá abriga espécies nativas como a andiroba (Carapa guianensis), a ucuuba (Virola surinamensis) e o murumuru (Astrocaryum murumuru). Há mais de 20 anos, extrativistas locais manejam suas sementes de forma sustentável, transformando-as em óleos e manteigas para atender ao mercado de cosméticos, incluindo empresas como a Natura.
Essa cadeia produtiva é coordenada pelas organizações locais CODAEMJ e a Amaru, que garantem não somente a qualidade dos produtos, mas, também, a valorização do trabalho das comunidades ribeirinhas.
Além disso, essa cadeia é profundamente amada e respeitada pelas mulheres da região. Embora os homens também participem do processo, são as mulheres que desempenham um papel central, zelando pelo conhecimento tradicional, garantindo a qualidade da produção e transmitindo suas práticas para as futuras gerações.
Jandira Medeiros, moradora da comunidade Xibauazinho, destaca que o que a cadeia representa para ela e para a comunidade: ”A cadeia gera sustentabilidade social e econômica, sem causar nenhum tipo de dano ao meio ambiente”.
O caminho da andiroba: do fruto ao hidratante
O processo de produção do óleo de andiroba é um trabalho minucioso e cheio de detalhes:
- Coleta: Homens e mulheres adentram a floresta para coletar as sementes, respeitando o tempo da natureza e os ciclos de frutificação.
- Lavagem das sementes: maioria coletores deixam as sementes de molho na água, geralmente em um período de até 12 horas, para facilitar o processo de limpeza e eliminar lagartas que possa estar nas sementes.
- Secagem e verificação: as sementes são cuidadosamente secas por 20 a 30 dias, com monitoramento constante para garantir a qualidade. (Durante nessa etapa o coletor já realiza uma pré-secagem)
- Compra e escoamento: os ribeirinhos vendem suas sementes, que são transportadas para as usinas de processamento, em uma viagem que pode durar até 10 dias.
- Armazenagem e triagem: ao chegarem ao centro de processamento, as sementes passam por uma rigorosa seleção para garantir sua procedência e qualidade.
- Extração e filtragem: as sementes são trituradas, cozidas e prensadas para a obtenção do óleo bruto, que passa por processos de purificação.
- Decantação: o óleo é armazenado em um ambiente controlado por dois dias (se necessário) para uma filtragem final, eliminando impurezas.
- Envase e distribuição: O produto final é embalado com todo o cuidado e segue para ser distribuído pelo país.
Desafios e impacto das mudanças climáticas
Por trás dessa cadeia estruturada, há desafios crescentes. As mudanças climáticas têm impactado diretamente a produção. A colheita da andiroba, que historicamente acontece em janeiro, precisou ser adiada devido às secas extremas que afetaram a região. Esses eventos climáticos colocam em risco não somente a produção, mas a vida das comunidades que dependem dela.
Além disso, Jandira ressalta a dificuldade de acesso ao local onde estão as sementes, com a falta de transportes adequados. Ela destaca também que no processo de beneficiamento, as comunidades carecem de mais secadores e quebradores de cocos.
Força coletiva e parcerias transformadoras
A comunidade do Médio Juruá é um exemplo inspirador de organização social e força coletiva. Com entidades como ASPROC, ASMAMJ, AMECSARA e ASPODEX, a região se destaca pela capacidade de garantir um produto de qualidade e manter a floresta em pé. Além disso, todas juntas buscam alternativas para melhorar as condições de renda e
Desde 2017 a Sitawi realiza a captação e gestão de aportes financeiros para o Programa Território Médio Juruá (PTMJ). Participa, também, do seu desenho e implementação programática em parceria com as organizações de base e instância local (Fórum TMJ, AMAB, AMARU, AMECSARA, ASMAMJ, ASPROC, ASPODEX, ACFRC e CODAEMJ).
A iniciativa tem a Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA), Mott Foundation, o Green Climate Fund e a Natura como parceiros financiadores. Também conta com parceria institucional da Alliance Biodiversity e CIAT, do Projeto Floresta+ Amazônia, do PNUD e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O programa reúne e apoia projetos liderados pelo território, fortalecendo o associativismo por meio da organização social de base comunitária e apoiando a bioeconomia local, além de ações de proteção territorial, governança, empreendedorismo feminino e juventude.
A cadeia dos óleos no Médio Juruá é um exemplo de como o extrativismo sustentável pode gerar renda, fortalecer a autonomia das comunidades e manter a floresta em pé.
“Ao longo dos anos, vimos avanços significativos na estruturação dessa cadeia, desde a melhoria das usinas até a capacitação dos extrativistas, especialmente das mulheres, as principais guardiãs desse saber tradicional. Apoiar esse processo é garantir que o desenvolvimento aconteça de forma justa e alinhada com a conservação da Amazônia”, declara Ronna Santos, coordenadora de Programas Territoriais da Sitawi.
Mais do que cosméticos, um ciclo de impacto positivo
Quando utilizamos um hidratante com ingredientes da Amazônia, estamos nos conectando com uma história rica de tradição, sustentabilidade e resistência. A cadeia das oleaginosas do Médio Juruá, além de impulsionar a economia local, também protege a floresta e valoriza os saberes ancestrais das comunidades.
Esse é um exemplo poderoso de como a biodiversidade e o empreendedorismo social podem andar juntos, criando um futuro mais justo e sustentável.
Conheça as protagonistas dessa história
Amaru: Criada em 2006, a Amaru tem como missão fortalecer a comunidade da RDS Uacari por meio do extrativismo vegetal. Ao comprar sementes de andiroba e murumuru, a associação melhora diretamente a qualidade de vida das famílias ribeirinhas. No PTMJ, suas iniciativas incluem aquisição de novos maquinários, logística para compra de sementes, comercialização e treinamentos.
CODAEMJ: Atuando há 24 anos no fortalecimento do agroextrativismo, a CODAEMJ se tornou referência na produção de óleos vegetais. Oficialmente transformada em cooperativa em 2013, ela garante renda para diversas mulheres da região. Além da infraestrutura moderna, seu maior diferencial é a valorização do conhecimento tradicional, unindo tecnologia e saberes ancestrais para preservar a floresta e melhorar a vida das comunidades.