Formar para a vida. Esse é o propósito da Casa Familiar Rural (CFR), escola instalada na região do Médio Juruá, no Amazonas, que desde 2019 oferece ensino médio e cursos de Qualificação Profissional com uma proposta inovadora: a pedagogia da alternância, em que os estudantes intercalam períodos na escola com momentos em suas comunidades, aplicando os aprendizados no dia a dia da floresta.
Em 2024, a Sitawi foi selecionada, depois de um extenso processo de seleção do Floresta+ Amazônia, com diversas organizações do Brasil, para realizar ações em parceria com organizações de base comunitária, nos estados da Amazônia Legal. A iniciativa é realizada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), com o apoio do Fundo Verde para o Clima (GCF).
Entre os projetos selecionados, está o intitulado: “Práticas agroecológicas e empreendedorismo para jovens ribeirinhos da Escola Familiar Rural do Campina”, liderado pela Associação das Famílias da Casa Familiar Rural de Carauari (ACFR). A iniciativa fortalece a formação de jovens protagonistas na região, impulsionando cadeias produtivas sustentáveis como borracha, pirarucu, viveiros de mudas e meliponicultura, sempre com foco na valorização da floresta em pé e da economia local.
“Nosso objetivo é oferecer uma educação que não incentive o êxodo rural, mas mostre aos jovens que eles podem permanecer em suas comunidades e contribuir com o desenvolvimento local”, afirma Enoque Ventura, presidente da Associação Casa Familiar Rural.
Um dos destaques recentes do projeto é o intercâmbio realizado em Manaus, que levou quatro jovens, Gabriel Cunha e Mikaela Paixão, da comunidade São Raimundo (RESEX do Médio Juruá), e Raimundo Aquino e Kailane Araújo, da comunidade Bauana (RDS Uacari), a participarem de uma visita ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), na capital do estado. Lá, conheceram experiências de sucesso na meliponicultura, uma cadeia ainda incipiente no território, mas com grande potencial socioeconômico.
“Vim fazer um intercâmbio sobre abelhas e não fazia ideia da importância dessa cadeia. Está sendo uma experiência incrível e com certeza vou levar esse aprendizado pra vida”, comenta Kailane.




O extrativismo do mel é uma prática antiga nos território amazônicos. a nova abordagem da cadeia do mel no médio juruá aposta em práticas mais sustentáveis através do cultivo em melionários e da integração com os Sistemas Agroflorestais (SAFs). Nesses sistemas, as abelhas nativas convivem de forma harmônica com a vegetação, gerando benefícios mútuos. Além disso, o cultivo se mostrou especialmente atrativo para as novas lideranças jovens, que se conectam à prática com uma visão de futuro e pertencimento comunitário.
“Pensar no protagonismo de jovens lideranças aliado à conservação da biodiversidade é fundamental para transformar boas práticas em soluções duradouras. Quando conseguimos conectar o protagonismo das comunidades e a valorização dos territórios com práticas economicamente viáveis, promovemos um desenvolvimento territorial socialmente justo para a população local. l”, ressalta Ronna Silva, coordenadora de Programas Territoriais na Sitawi.
Neste mês de julho, foi realizada mais uma etapa prática: a produção de mudas em viveiros, parte do fortalecimento da cadeia de reflorestamento e restauração. Também estão previstas oficinas de manejo do pirarucu e a produção de cartilhas de boas práticas, que serão distribuídas em escolas e comunidades da região, ampliando o impacto das formações.
Ao valorizar os saberes locais e conectar os jovens às oportunidades do próprio território, a Casa Familiar Rural reforça que educar também é uma forma de regenerar e viver a floresta.