Por Ronnayana Silva, Lívia Cruz, Camila Duarte Ritter
Nos últimos anos, tem sido crescente a percepção da violência nas comunidades amazônicas, fenômeno associado ao avanço do narcotráfico nas áreas ribeirinhas. Outro fator de preocupação é a tentativa de entrada do garimpo ilegal na região. Desde 2022, três balsas garimpeiras tentaram se instalar no Médio Juruá, sendo todas impedidas pela força da organização comunitária. Em ambos os contextos, narcotráfico e garimpo, as mulheres figuram entre os grupos mais vulneráveis, enfrentando maior exposição à violência moral, física e sexual, sobrecarga de trabalho e sofrimento emocional decorrente da ausência de filhos e companheiros que podem se envolver nessas atividades ilícitas.
A Associação de Mulheres Agroextrativistas do Médio Juruá (ASMAMJ) convidou as mulheres do Médio Juruá para debater os impactos do garimpo e do narcotráfico no território e agir, de maneira preventiva, diante dos possíveis malefícios dessas ameaças.
O evento “Entre o Cuidado e a Luta: Mulheres do Médio Juruá como resistência nos espaços de atuação” aconteceu nos dias 26 e 27 de outubro de 2025 na base do Campina, RDS Uacari, reunindo mulheres de Carauari e Itamarati, representantes da TI Taquara, da RESEX Médio Juruá, da RDS Uacari e da área do Acordo de Pesca de Itamarati. A realização foi da ASMAMJ, Sitawi, por meio do Programa Território Médio Juruá, e Instituto Juruá, em parceria com Fórum TMJ, OPAN, ICMBio, Sema, LAIV, Mott Foundation e comunidades locais.
Durante o encontro, as participantes debateram sobre o que é o narcotráfico, as logísticas de escoamento de drogas e porque as comunidades têm percebido o aumento da circulação de drogas. Também discutiram os prejuízos ambientais e sociais causados pelo garimpo, com destaque para a contaminação por mercúrio e seu efeito na saúde e as violências de gênero associadas — diretas e indiretas — a essas atividades.
Além dos impactos sociais, foi destacada a ameaça à biodiversidade local. O monitoramento das praias de tabuleiro, atividade fundamental para a recuperação das populações de quelônios e para a proteção da fauna das margens do rio Juruá, tem sido prejudicado pelo narcotráfico, que utiliza os animais como moeda de troca por drogas. A degradação ambiental provocada por essas práticas afeta diretamente os sistemas de manejo comunitário e compromete o equilíbrio ecológico da região, além de ameaçar as cadeias da sociobiodiversidade que são a principal fonte de recursos financeiros das comunidades locais.
Caminhos da solução
Se, por um lado, o enfraquecimento das lideranças comunitárias e a vulnerabilidade econômica ampliam o risco de cooptação para atividades ilícitas, por outro, as participantes reconheceram a força das cadeias produtivas locais como ferramentas de proteção territorial, fortalecimento comunitário e geração de renda. O envolvimento das moradoras e moradores nas atividades de manejo e produção sustentável tem se mostrado uma das principais formas de prevenir a entrada e a permanência do narcotráfico e do garimpo nas comunidades. Essas atividades configuram não só uma alternativa de renda, como fortalecem a mobilização comunitária e as redes de apoio entre comunidades e organizações. Acesso à renda e, consequentemente, redução da situação de vulnerabilidade das comunidades são os meios mais eficientes de resistência às falsas promessas do narcotráfico e do garimpo.
As mulheres também ressaltaram a importância da educação preventiva no campo, das ações de acolhimento social e psicológico e da criação de espaços de diálogo permanentes para fortalecer a consciência coletiva. Nesse sentido, o garimpo e o narcotráfico devem ser tratados como questões de saúde e segurança pública, exigindo respostas estratégicas em níveis municipal, estadual e federal. A urgência de investimento em fiscalização no rio Juruá e desenvolvimento de políticas públicas voltadas às mulheres, juventudes e crianças ribeirinhas foi reforçada, priorizando a prevenção e o fortalecimento de alternativas sustentáveis.
Manifesto
Como resultado do encontro, as comunidades, por meio de suas representantes, elaboraram um manifesto público expressando profunda preocupação com o aumento da violência e o sentimento de ameaça provocados pelas tentativas de garimpo e pelo avanço do narcotráfico.
No documento, as moradoras e moradores do território solicitaram ações conjuntas e integradas entre autoridades municipais, estaduais e federais ligadas à segurança e à saúde pública. O manifesto defende que o garimpo e o narcotráfico sejam reconhecidos como problemas estruturais, que exigem políticas coordenadas de prevenção, monitoramento e responsabilização.
O texto foi socializado entre as comunidades locais, e compartilhado com autoridades do poder executivo e da segurança pública do município de Carauari durante a reunião do conselho das reservas RDS Uacari e RESEX Médio Juruá. Leia o manifesto completo na íntegra.