Desde o Acordo de Paris, em 2015, os países se comprometeram a mobilizar US$ 100 bilhões por ano para apoiar projetos de sustentabilidade em países em desenvolvimento. A meta incluía não apenas recursos financeiros, mas também transferência de tecnologia e apoio técnico para que economias emergentes pudessem se adaptar aos impactos da mudança do clima e reduzir suas emissões de gases de efeito estufa (GEE).
Esse compromisso deu origem ao conceito de financiamento climático, que se tornou um dos eixos centrais da governança global do clima. Mas surge uma pergunta essencial: como garantir que esse dinheiro chegue na ponta, em quem realmente protege e cuida do meio ambiente?
O que é financiamento climático?
De acordo com a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), financiamento climático é todo recurso — local, nacional ou transnacional — proveniente de fontes públicas, privadas ou alternativas, destinado a apoiar ações de mitigação (redução das emissões de gases) e adaptação (preparo e resposta aos impactos climáticos).
Na prática, isso pode significar desde o apoio a pequenos agricultores na instalação de energia renovável, até a restauração de áreas degradadas, passando pela criação de infraestruturas resilientes ou pelo financiamento de tecnologias limpas.
Em resumo, trata-se de um mecanismo essencial para:
- Diminuir as emissões globais de GEE;
- Reduzir a vulnerabilidade de comunidades e ecossistemas;
- Aumentar a resiliência frente a eventos climáticos extremos.
Panorama do financiamento climático
Os esforços para organizar e desenvolver o financiamento climático têm sido pauta na governança internacional do clima desde a Eco-92, realizada no Rio de Janeiro em 1992. Conhecida também como Cúpula da Terra ou oficialmente como Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, essa conferência é um marco na luta contra as mudanças climáticas. Foi a primeira a reunir em grande escala governos, sociedade civil e setor privado para estabelecer medidas voltadas para enfrentar o aumento das emissões de gases de efeito estufa.
Mas o marco real para o financiamento climático foi o Acordo de Paris, estabelecido por 195 países na 21ª Conferência das Partes (COP21), em 2015. Esse acordo assumiu o compromisso de reduzir imediatamente as emissões globais de gases de efeito estufa (GEE) com o objetivo de manter o aumento da temperatura global bem abaixo dos 2°C e, idealmente, limitar o aumento a 1,5°C.
Ainda assim, de acordo com relatório do Climate Policy Iniciative, o volume médio anual de financiamento climático atingiu cerca de US$ 1,3 trilhão em 2021/2022, o que corresponde a 1% do PIB global. Este valor está significativamente abaixo dos aproximadamente US$ 8,1 trilhões estimados como necessários anualmente até 2030.
Nesse sentido, é evidente que, apesar dos esforços realizados, existem desafios significativos associados ao financiamento climático. Entre eles estão a mobilização de recursos suficientes para atingir as metas climáticas estabelecidas, a definição de prioridades para a alocação dos recursos e a distribuição dos fundos de maneira justa, eficaz e transparente.
Fontes e formas do financiamento
O financiamento climático pode ter diferentes origens e formatos.
De onde vem o dinheiro?
- Fundos públicos: governos nacionais, que destinam recursos tanto para ações internas quanto para apoiar países mais vulneráveis, por meio de mecanismos bilaterais ou multilaterais.
- Fundos privados: empresas, investidores e famílias que aplicam recursos em projetos climáticos, seja via doações, empréstimos ou investimentos de impacto.
Como ele é utilizado?
- Subsídios: recursos não reembolsáveis (doação) para apoiar projetos estratégicos;
- Empréstimos concessionais: créditos com condições favoráveis de pagamento, muitas vezes com juros baixos ou prazos estendidos;
- Investimentos empresariais: capital destinado em troca de participação em projetos ou lucros futuros.
Quem recebe?
- Países em desenvolvimento, que necessitam de apoio externo para implementar medidas climáticas.
- Setores em transição, como indústrias que precisam migrar de combustíveis fósseis para energias renováveis.
- Comunidades locais e povos tradicionais, frequentemente os mais impactados pelos efeitos da crise e, ao mesmo tempo, os principais guardiões de ecossistemas estratégicos.

COP 30 e o financiamento climático
Em 2025, o Brasil sediará pela primeira vez uma Conferência das Partes: a COP30, em Belém, no coração da Amazônia. O evento marca os 10 anos do Acordo de Paris e os 33 anos da ECO-92, que também aconteceu no Brasil e deu origem à UNFCCC.
Como anfitrião, o Brasil terá um papel crucial na articulação de compromissos e ações concretas à altura da urgência climática. Um dos principais desafios será justamente avançar nas discussões sobre financiamento climático – não apenas para mitigação e adaptação, mas também para perdas e danos, especialmente em países mais vulneráveis.
Um problema que herdamos da COP29 foi justamente a necessidade de encaminharmos uma solução para o financiamento climático. No acordo estabelecido, os países desenvolvidos firmaram o compromisso de mobilizar US$ 300 bilhões por ano até 2035, muito abaixo dos US$ 1,3 trilhão solicitados. A discrepância foi alvo de críticas e levantou questões que seguem em aberto, como a origem dos recursos e a transparência de suas aplicações.
Mais do que aumentar valores, é preciso estruturar mecanismos eficazes, auditáveis e acessíveis, especialmente para os países e territórios mais impactados pelas mudanças climáticas.
Justiça climática: quem mais sofre é quem menos poluiu
A crise climática não afeta todos igualmente. Países e populações do Sul Global, responsáveis por uma fração mínima das emissões históricas, são os que mais sofrem os impactos: secas, enchentes, eventos extremos, insegurança alimentar e deslocamentos forçados.
Falar em justiça climática é reconhecer que o financiamento deve priorizar quem protege e quem resiste — comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e periféricas. Elas estão na linha de frente da defesa ambiental, mas continuam sendo as que menos acessam os recursos e os mais impactados por seus efeitos.
Quem realmente precisa do recurso?
Mesmo com avanços no financiamento climático — como a criação de fundos e arranjos entre governos, empresas e organizações filantrópicas — os recursos ainda são insuficientes. E, quando se trata de apoiar organizações comunitárias, movimentos sociais e lideranças locais, esses recursos se tornam ainda mais escassos.
Para enfrentar esse desafio, é essencial que os recursos cheguem de forma mais direta a essas comunidades, em vez de ficarem concentrados apenas em grandes projetos. A filantropia pode ter um papel central nesse processo, ajudando a democratizar o acesso ao financiamento e fortalecendo a adaptação e a transformação ecológica nos territórios.
Hoje, o acesso ao financiamento climático internacional é bastante limitado para organizações comunitárias. Pequenos grupos não conseguem acessar diretamente esses fundos, que geralmente entram nos países por meio de intermediários, que a grupam projetos menores em propostas maiores que atendem aos critérios internacionais.
No entanto, se queremos de fato combater as mudanças climáticas, é indispensável ampliar a ambição: transferir mais fundos, com mais rapidez, para os locais que mais precisam. E fazer isso de maneira coerente, reconhecendo que a emergência climática está diretamente ligada às desigualdades sociais e à defesa dos direitos humanos.
Como colocar em prática?
A urgência e a complexidade da crise climática exigem novas formas de financiamento, capazes de viabilizar soluções efetivas para conservar a natureza e enfrentar os desafios ambientais.
A Sitawi Finanças do Bem desenvolve soluções financeiras inovadoras que combinam impacto socioambiental positivo e sustentabilidade econômica. Nosso objetivo é identificar o instrumento mais adequado para cada bioma e realidade local, garantindo que os recursos gerem transformações concretas.
No financiamento climático, atuamos com mecanismos como o REDD+, transformando essas oportunidades em benefícios reais para pessoas e para a natureza. Isso inclui a implementação de salvaguardas socioambientais e a criação de fundos de repartição de benefícios. Também unimos recursos governamentais, privados e filantrópicos, explorando diferentes caminhos para investir na natureza e gerar resultados ambientais e financeiros positivos.
Colaboramos com organizações e empresas para desenhar soluções que destravam capital por meio de mecanismos como blended finance, investimento de impacto, programas territoriais e REDD+. A partir de análises econômicas, financeiras e socioambientais, estruturamos projetos sólidos e personalizados, capazes de atrair investimento, escalar soluções climáticas e gerar impacto real nos territórios.
Se você ou sua organização querem entender como mobilizar recursos e implementar soluções financeiras para enfrentar a crise climática, fale com a gente!