Nova iniciativa conecta tecnologia, democracia e proteção para mulheres comunicadoras na América Latina

A inteligência artificial está transformando a forma como informações são produzidas, distribuídas e disputadas. Ao mesmo tempo em que abre novas possibilidades para comunicação, pesquisa e acesso ao conhecimento, também amplia desafios para grupos historicamente vulnerabilizados, especialmente mulheres jornalistas, comunicadoras e defensoras de direitos humanos que enfrentam violência digital, campanhas de desinformação e ataques coordenados.

Um estudo da UNESCO aponta que cerca de 75% das mulheres jornalistas já sofreram algum tipo de violência online, enquanto uma parcela significativa relata ameaças físicas ou de morte associadas a esses ataques. Com o avanço das ferramentas de inteligência artificial, novas formas de violência passaram a ganhar escala, incluindo produção de conteúdos falsificados, deepfakes, exposição indevida de dados pessoais (doxxing) e campanhas automatizadas de assédio.

No Brasil e na América Latina, esses impactos também revelam desigualdades raciais e de gênero. Mulheres negras, indígenas e quilombolas que ocupam espaços públicos estão entre os grupos mais expostos a tentativas de silenciamento e deslegitimação. Quando vozes diversas deixam de participar do debate público, toda a sociedade perde em qualidade de informação, pluralidade e capacidade democrática.

Uma rede criada para enfrentar novos desafios digitais

É nesse contexto que atua a Rede de Jornalistas Pretos pela Diversidade na Comunicação (Rede JP), organização fundada em 2018 e formalizada institucionalmente em 2021, que trabalha para fortalecer a presença, a segurança e a sustentabilidade de jornalistas e comunicadores de grupos sub-representados no Brasil e na América Latina.

A organização desenvolve iniciativas que combinam formação, pesquisa, tecnologia e proteção digital, criando soluções voltadas aos desafios contemporâneos do ecossistema informacional.

Entre essas iniciativas está a Rede de Proteção Digital para Comunicadoras Negras (REPCONE), programa voltado ao fortalecimento da segurança digital, jurídica e psicossocial de comunicadoras e jornalistas de grupos sub-representados. A iniciativa oferece formação, criação de redes de apoio, mecanismos de resposta diante de ameaças digitais e oportunidades de empoderamento econômico, por meio de microbolsas (mini grants) destinadas a apoiar projetos, ações de comunicação e estratégias desenvolvidas pelas próprias participantes.

Ao combinar proteção, conhecimento e acesso a recursos, a REPCONE busca ampliar a autonomia, a capacidade de resposta e a sustentabilidade das comunicadoras que atuam em espaços públicos, especialmente em contextos de maior exposição a ataques digitais, violência de gênero e desinformação.

A Rede JP também desenvolve soluções tecnológicas e pesquisas a partir de perspectivas do Sul Global, como o ComuniHub, infraestrutura digital voltada ao fortalecimento do jornalismo e da circulação de conhecimento, e o LATINAS IA, inteligência artificial conversacional criada para oferecer orientação e apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade no ambiente digital.

Um fundo para fortalecer a infraestrutura informacional

Para ampliar a sustentabilidade dessas ações e criar uma estrutura capaz de receber recursos nacionais e internacionais, a Rede JP criou o Fundo Afrolatino para o Jornalismo de Interesse Público, iniciativa ligada ao Fundo Filantrópico Rede JP, com gestão financeira da Sitawi Finanças do Bem.

A parceria parte do reconhecimento de que a informação é uma infraestrutura essencial para o desenvolvimento social e democrático. Assim como comunidades, territórios e ecossistemas naturais precisam de mecanismos sustentáveis de proteção e investimento, o ambiente informacional também depende de organizações, tecnologias, redes locais e profissionais preparados para produzir, verificar e distribuir conhecimento confiável.

Nesse sentido, fortalecer jornalistas e comunicadores significa investir em uma camada fundamental da democracia: a capacidade de diferentes comunidades participarem do debate público, produzirem suas próprias narrativas e enfrentarem desigualdades históricas no acesso à informação.

O Fundo Afrolatino permite que recursos destinados ao fortalecimento da diversidade informacional sejam administrados com segurança, transparência e governança, facilitando a atuação da Rede JP junto a financiadores institucionais e parceiros estratégicos.

Além de apoiar iniciativas da própria Rede JP, o Fundo tem potencial para apoiar outras organizações e projetos alinhados a essa agenda, ampliando o acesso a recursos para iniciativas locais que atuam com comunicação, tecnologia, diversidade e integridade da informação.

Para Marcelle Chagas, coordenadora geral da Rede JP, pesquisadora da Mozilla Foundation e responsável pela estratégia do Fundo Afrolatino, a criação desse mecanismo representa uma mudança na forma como a sociedade compreende investimentos de impacto:

“Um fundo estruturado permite que a proteção, a pesquisa, a tecnologia e a formação continuem existindo entre um edital e outro. Não estamos financiando ações isoladas, mas fortalecendo uma infraestrutura permanente para garantir que diferentes vozes continuem participando do ecossistema de informação e da construção democrática.”

Fernanda Pessoa, Gerente Sênior de Gestão de Filantropia da Sitawi, reitera que essa parceria contribui para ampliar a sustentabilidade e o alcance dessa agenda:

“Fortalecer a democracia exige garantir que jornalistas e comunicadoras possam atuar com segurança e autonomia. Ao realizar a gestão financeira do Fundo Afrolatino, a Sitawi contribui para que financiadores nacionais e internacionais apoiem essa agenda com governança, transparência e eficiência, ampliando a sustentabilidade das iniciativas desenvolvidas pela Rede JP e por outras organizações do ecossistema.”

Fortalecendo redes latino-americanas de informação

A atuação da Rede JP também se conecta à Red de Periodistas Afrolatinos, iniciativa criada pela organização para aproximar jornalistas negros e comunicadores de diferentes países da América Latina, incluindo Brasil, Argentina, Colômbia, Peru e Equador.

A rede amplia a circulação de narrativas produzidas por profissionais afrodescendentes e fortalece conexões entre comunicação, tecnologia e justiça racial no continente.

O apoio ao Fundo Afrolatino para o Jornalismo de Interesse Público representa uma oportunidade de fortalecer uma nova agenda de investimento social: aquela que reconhece a informação confiável, a diversidade de vozes e a proteção de comunicadores como elementos essenciais para sociedades democráticas e resilientes.

Em um momento em que a inteligência artificial redefine a disputa por informação e visibilidade, fortalecer ecossistemas informacionais diversos é também fortalecer a democracia.

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