Andiroba: a semente que gera renda e planos para moradores do Território Médio Juruá

Coleta deste ano está entre as maiores da década; famílias usam dinheiro para investir e comprar equipamentos, como os de energia solar

Conforme as cadeias de produtos da floresta amazônica vão se estruturando ao longo dos anos, além de contribuir com a preservação da biodiversidade, também fortalecem a geração de renda para as comunidades locais. Com isso, os moradores conseguem se programar financeiramente, planejando investimentos após as safras. 

É o que ocorre com as famílias que coletam sementes, principalmente andiroba e murumuru, no Território Médio Juruá, no Estado do Amazonas. Ao contrário de 2021, quando a enchente na região levou boa parte das sementes, prejudicando a safra, neste ano a coleta já está entre as maiores da última década.

De acordo com levantamentos iniciais das duas organizações que atuam nas comunidades ao longo do rio Juruá, no município de Carauari, já foram adquiridas cerca de 27 mil latas de sementes de andiroba em 2022, que podem render pelo menos 33 toneladas de óleo usado na indústria de cosméticos e produtos de higiene pessoal. Em média, a produção fica entre 22 toneladas e 25 toneladas na região. 

Dados da Associação dos Moradores Agroextrativista de Desenvolvimento Sustentável Uacari (AMARU), uma das entidades responsáveis pela comercialização das sementes e processamento do óleo, mostram que na primeira etapa de compra foram adquiridas 14 mil latas de andiroba. Após o processamento, devem render entre 15 e 20 toneladas de óleo.

Isso representa R$ 108 mil para as famílias que coletam as sementes em várias comunidades instaladas às margens do rio Juruá. 

“Em anos anteriores, as famílias usavam o dinheiro da coleta para alimentação, compra de material para a pesca e outros itens. Agora, como a safra está sendo muito boa, várias delas estão buscando investir na compra de equipamentos de energia solar para suas casas. Isso é muito importante para eles”, diz Franciney de Souza, presidente da AMARU.

Muitos ribeirinhos vivem em comunidades às margens do rio que ainda não têm energia elétrica instalada, ficando na dependência de geradores – com custo alto por causa do uso de combustível – ou de sistema solar. 

Essas comunidades fazem parte da zona rural de Carauari, sede do território, que abriga uma área de 1,2 milhão de hectares, com duas Unidades de Conservação – a Reserva Extrativista (Resex) Médio Juruá e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari – e parte da Terra Indígena Deni do Rio Xeruã.   

Segundo Souza, para uma segunda etapa de aquisição, a previsão é investir mais cerca de R$ 110 mil na compra de outras 15 mil latas de andiroba já disponíveis nas comunidades. 

Já a Cooperativa Mista de Desenvolvimento Sustentável e Economia Solidária do Médio Juruá (CODAEMJ), outra organização responsável pela comercialização, recolheu até agora 13 mil latas de sementes de andiroba, o que deve render 18 toneladas de óleo.

“Essa safra está sendo muito boa. Daria até para coletar mais sementes. Além disso, as mulheres participam cada vez mais dessa atividade, ganhando seu próprio dinheiro. Parte desse recurso é usada no dia a dia, mas o restante as famílias investem em equipamentos de maior valor”, conta Francisca Figueiredo, da CODAEMJ.

Como funciona – A compra de toda a produção de óleo de andiroba da região fica a cargo da empresa Natura, um dos três parceiros estratégicos do Programa Território Médio Juruá (PTMJ), juntamente com a USAID/Brasil, a Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) e a Aliança Bioversity/CIAT. 

O PTMJ é coordenado pela SITAWI, além de organizações comunitárias (ASPROC, ASMAMJ, AMECSARA, AMARU, CODAEMJ e ASPODEX) que atuam como implementadoras das ações. 

O ICMBio, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA) e a OPAN apoiam o programa. Já a cadeia dos óleos vegetais conta ainda com a colaboração do Instituto Juruá, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e de outros parceiros e organizações que apoiam a cadeia na região.

Atualmente, a cadeia de coleta de sementes e o processamento de óleos e de manteiga de murumuru envolvem mais de 663 famílias e 2.652 agroextrativistas na região, incluindo mulheres. As coletas das sementes de andiroba ocorrem normalmente entre janeiro e maio, enquanto a de murumuru começa em junho e vai até meados de agosto.

O processo – Depois da coleta das sementes pelas famílias, sendo a maior parte executada pelas mulheres, as sementes são compradas pelas organizações – AMARU e CODAEMJ – para o processamento. 

Ao chegar às unidades de processamento, instaladas no  Núcleo de Conservação do Bauana e na comunidade do Roque, as sementes passam por um período de secagem, que pode durar de 15 a 20 dias. Somente depois, vão para o processamento que resulta na extração do óleo ou da manteiga. 

Coordenador de produção da Empresa de Base Comunitária (EBC) Bauana e morador da comunidade Bom Jesus, na RDS Uacari, Reginaldo Oliveira dos Santos conta que a cadeia produtiva das sementes e óleos teve um impacto muito positivo na geração de renda.

“Muitas famílias tiram o sustento das roças e da pesca, principalmente do pirarucu. A coleta aumentou a renda. Isso foi uma coisa gratificante, que veio para melhorar a qualidade de vida das pessoas”, afirma. Segundo Santos, esse incentivo também contribui para a preservação da floresta porque os moradores cuidam dessas árvores.

 Conheça mais sobre o PTMJ no site da SITAWI e da PPA

Texto: Luciana Constantivo

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