Proteger e recuperar a natureza exige um volume elevado de recursos, estimado em pelo menos US$ 700 bilhões por ano, segundo as Nações Unidas. A maior parte desse montante deve ser viabilizada pelos governos, por meio do redirecionamento de subsídios que hoje prejudicam a biodiversidade, conforme acordado entre os países da Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU.
Mas, para alcançarmos essa meta, precisamos ir além dos recursos públicos, é necessário mobilizar US$ 200 bilhões por ano no setor privado, combinando instrumentos já existentes e novas soluções financeiras para a conservação.
Nesse contexto, os créditos de biodiversidade têm ganhado espaço como um mecanismo de mercado para direcionar capital privado para ações positivas para a natureza.
O que são créditos de biodiversidade
Créditos de biodiversidade são instrumentos financeiros gerados a partir de iniciativas que protegem, preservam ou fortalecem a biodiversidade em um território específico. Na prática, eles reconhecem e remuneram ações com resultado ambiental positivo, beneficiando proprietários de terras, empresas e comunidades que adotam práticas sustentáveis e contribuem para a conservação da fauna e da flora.
Cada crédito representa uma unidade de impacto positivo em uma região ecologicamente sensível. Ou seja, funciona como uma forma de financiar e impulsionar projetos de conservação e restauração com critérios mensuráveis.
Por que os créditos de biodiversidade estão ganhando atenção
Os créditos de biodiversidade vêm ganhando força como alternativa para ampliar o financiamento privado para a conservação e a restauração. Esse movimento se intensificou após a aprovação do Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal em 2022, muitas vezes chamado de “Acordo de Paris da Natureza”.
Outro fator importante é o avanço de padrões e pressões por transparência corporativa. A expectativa é que empresas divulguem de forma mais clara seus riscos e impactos relacionados à natureza, incluindo métricas ligadas ao capital natural, como as propostas pela Taskforce on Nature-Related Financial Disclosure, TNFD.
Na prática, isso aumenta a demanda por instrumentos que conectem investimento privado a resultados ambientais concretos.

Como funciona um crédito de biodiversidade na prática
O mecanismo pode variar conforme o padrão adotado, mas a lógica é semelhante.
Organizações da sociedade civil, governos, proprietários de terras ou empresas com foco em conservar ou restaurar a natureza podem emitir créditos. Em geral, cada crédito representa um resultado definido, como a conservação ou a restauração de uma determinada área por um período específico.
Do outro lado, empresas e investidores podem adquirir esses créditos como forma de financiar ações positivas para a biodiversidade, com rastreabilidade e comprovação de resultados.
A relação direta com restauração ambiental
Créditos de biodiversidade estão ligados a práticas de regeneração ambiental, como reflorestamento, restauração ecológica e sistemas agroflorestais.
Esses créditos, se implementados de forma correta, podem incentivar ações como:
- Recuperação de áreas degradadas;
- Reintrodução de espécies nativas;
- Formação de corredores ecológicos, conectando fragmentos de vegetação e permitindo o fluxo de fauna e flora;
- Implementação de agroflorestas, que combinam produção agrícola e conservação.
Oportunidades para propriedades rurais e empresas
Assim como os créditos de carbono, os créditos de biodiversidade podem ser uma oportunidade de valorização econômica para quem protege e restaura ecossistemas naturais.
- Para proprietários rurais – os créditos abrem a possibilidade de rentabilizar áreas preservadas e restauradas sem depender da conversão do território para atividades convencionais que, muitas vezes, degradam o solo e reduzem a biodiversidade. Nesse modelo, preservar vegetação nativa e recuperar áreas degradadas passa a ser uma escolha com retorno econômico.
- Para empresas – a compra de créditos de biodiversidade permite financiar projetos de conservação e restauração, ajudando a endereçar impactos ambientais associados às operações e cadeias produtivas. Além disso, esse tipo de investimento pode apoiar a gestão de riscos relacionados aos ecossistemas, como: danos a florestas e plantações, pressões regulatórias e de compliance e exigências de transparência sobre impactos e dependências da natureza.
Um ponto crítico: créditos não substituem a responsabilidade ambiental
Apesar do potencial, é importante reconhecer que mecanismos de mercado podem ser vistos tanto como solução promissora quanto como alternativa arriscada, dependendo de como são estruturados e utilizados.
Por isso, a adoção de créditos de biodiversidade precisa seguir uma certa “hierarquia de mitigação”, que define uma ordem de prioridade para empresas:
- Evitar ao máximo gerar impactos ambientais negativos;
- Reduzir os impactos que não podem ser evitados;
- Restaurar por meio de projetos próprios, sempre que possível;
- Compensar apenas a parcela mínima e residual do que for inevitável, usando instrumentos como créditos.
Esse cuidado é essencial para garantir que os créditos sejam parte de uma estratégia séria e consistente, e não um atalho para justificar impactos.
Por que o setor privado precisa contribuir com a biodiversidade
Até aqui, os governos responderam pela maior parte do financiamento global destinado à natureza, cerca de 83%. Ainda assim, com restrições orçamentárias e outras prioridades nacionais, é pouco provável que os recursos públicos consigam suprir sozinhos o déficit que permanece.
Por isso, cresce a pressão para que o setor privado assuma maior participação no financiamento da conservação e da restauração.
Além de uma demanda da sociedade civil e de compromissos internacionais, existe um fator pragmático. Financiar a proteção da natureza pode ajudar empresas a gerenciar riscos reais, com efeitos diretos sobre produtividade, logística e estabilidade de negócios.
O papel da Sitawi
A crise climática e a perda de biodiversidade são desafios urgentes. Para enfrentá-los, é fundamental viabilizar alternativas de financiamento que acelerem ações de conservação, restauração e fortalecimento de uma Economia de Impacto que aumente a resiliência dos ecossistemas e da sociedade.
Na Sitawi Finanças do Bem, acreditamos que mecanismos financeiros são parte central dessa resposta. Desenvolvemos soluções financeiras para conservar a biodiversidade e enfrentar desafios climáticos, identificando mecanismos adaptados para cada bioma e necessidade.
Temos experiência em unir recursos governamentais, privados e filantrópicos para gerar impacto socioambiental e financeiro positivo, incluindo estruturas que envolvem créditos de biodiversidade.
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