Fundo Flora traz modelo inovador de financiamento para dar escala à restauração na Amazônia

Por Eduarda Thurler, Victoria Bastos, Ana Cecília Gonçalves e Ana Beatriz Villela

Ampliar os investimentos na restauração de paisagens e florestas é urgente e estratégico. Segundo o MapBiomas, o Brasil possui mais de 30 milhões de hectares com alto potencial para restauração ecológica e produtiva. A restauração dessas áreas pode gerar até 2 milhões de empregos e movimentar mais de R$ 230 bilhões em cadeias da bioeconomia e de reflorestamento, de acordo com estimativas da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.

Há recursos disponíveis, mas esse dinheiro ainda não está chegando na cadeia da restauração. O fluxo global de financiamento climático ultrapassa US$ 1,4 trilhão por ano, segundo o Climate Policy Initiative, mas apenas 3% são destinados para Soluções Baseadas na Natureza. Também há empreendedores e comunidades dispostas a recuperar nossos ecossistemas, mas que enfrentam dificuldade de acessar crédito e recursos. O resultado é que há capital procurando impacto e projetos buscando recursos, mas os dois raramente se encontram.

Como construir uma ponte ligando esses dois mundos?

O Fundo Flora surge como um novo modelo de investimento que pode redefinir o financiamento da restauração na Amazônia e no Brasil.  

A ser lançado na COP30, em Belém, o Fundo é inspirado no modelo do TerraFund for AFR100, implementado pelo WRI na África. Esse modelo já mobilizou US$ 33 milhões em financiamento, e está apoiando 198 projetos que já restauraram mais de 65 mil hectares. O TerraFund mostra que é possível preencher a lacuna de investimentos para organizações e empresas de pequeno e médio porte que estão no centro de uma nova economia da restauração, conectando as pessoas que querem restaurar com o financiamento necessário.  

Inovação financeira para dar escala à restauração

Uma iniciativa do WRI Brasil e com gestão financeira da Sitawi Finanças do Bem, o Fundo Flora é uma parceria de financiamento voltada para selecionar, capacitar e monitorar projetos de restauração liderados localmente na Amazônia brasileira. Ele é estruturado como uma facility – uma plataforma que reúne diferentes fontes e instrumentos de financiamento sob uma mesma estrutura de governança, permitindo combinar capital filantrópico, público e privado para ampliar o impacto de projetos socioambientais.  

A grande inovação do Fundo Flora é ir além do financiamento tradicional. Sua tese de investimento incorpora mecanismos de blended finance, combinando capital filantrópico, público e privado. Além disso, aposta numa abordagem de finanças baseadas em resultados, em que parte dos pagamentos é vinculada a métricas socioambientais, como hectares restaurados, empregos criados e inclusão produtiva de comunidades locais. 

Essa estratégia traz dois diferenciais principais:

  • Redução de riscos para atrair capital privado, por meio de recursos concessionais que funcionam como garantias ou primeira perda.
  • Mobilização em escala, permitindo que investidores de diferentes perfis participem de um mesmo veículo, desde doadores filantrópicos até fundos institucionais e de impacto.

Na prática, o Fundo investirá em empreendimentos e projetos com relevância socioambiental, consistência técnica, capacidade de execução, potencial de impacto e alinhamento às políticas públicas brasileiras, com foco em Regeneração Natural Assistida (RNA), agroflorestas e bioeconomia da sociobiodiversidade.  

O arranjo combina doações para organizações com projetos voltados para restauração, empréstimos para apoiar empreendimentos na bioeconomia e investimento híbrido para organizações que precisam de apoio nas duas frentes, somados a apoio técnico e ao monitoramento estratégico por até seis anos via a plataforma TerraMatch.

O monitoramento é um dos pilares do Fundo Flora: mais do que acompanhar o uso dos recursos, trata-se de garantir transparência, credibilidade e resultados verificáveis para investidores e sociedade. Essa abordagem permite que o fundo se torne um mecanismo confiável de geração de impacto e atração de novos recursos. 

Mais do que financiar projetos, o fundo viabiliza uma nova economia da floresta em pé, onde a regeneração natural e o uso sustentável da biodiversidade caminham juntos para transformar paisagens e gerar prosperidade.

Transformando o Arco do Desmatamento no Arco da Restauração

No Brasil, o Fundo Flora foi adaptado ao contexto amazônico, com foco inicial no estado do Pará. A meta é mobilizar recursos para financiar, monitorar e acelerar projetos de restauração liderados por organizações locais. Mas por que a escolha de começar pela Amazônia paraense?

O Pará é hoje um dos estados mais estratégicos para a restauração na Amazônia. Além de ser o maior em economia e população na região, assumiu um papel de vanguarda ao lançar o primeiro Plano de Recuperação da Vegetação Nativa (PRVN-PA) da Amazônia, alinhado ao Programa Amazônia Agora, uma iniciativa estadual também pioneira na região que propõe alinhar desenvolvimento econômico e social com políticas de gestão ambiental e combate ao desmatamento.  

Com a meta de restaurar 5,65 milhões de hectares até 2030, o Pará pode desenvolver um papel importante em transformar o “arco do desmatamento” no “arco da restauração”. A expectativa é que a implementação do PRVN possa gerar até R$ 40 bilhões em riqueza, R$ 9,4 bilhões em renda e R$ 1,9 bilhão em arrecadação para o estado, segundo estudo do WRI Brasil.

Essa visão está diretamente conectada à Nova Economia para a Amazônia (NEA), que aponta a restauração e a bioeconomia como motores de uma transformação econômica regional.  O estudo, lançado em 2023, aponta que o financiamento da restauração e da transição para uma economia de baixo carbono exige novos arranjos capazes de mobilizar recursos em escala — estimados em R$ 2,56 trilhões até 2050, cerca de 1,8% do PIB nacional por ano.  

Para isso, recomenda-se criar mecanismos financeiros inovadores, como instrumentos híbridos (blended finance) que combinem capital público, privado e filantrópico, e fortalecer incentivos para a bioeconomia local – exatamente o tipo de inovação financeira que o Fundo Flora busca trazer.

Do impacto local à agenda climática global

O Fundo Flora deve apoiar, em sua primeira rodada de investimentos, cerca de 15 projetos em diferentes municípios do Pará. Até 2026, a meta é alcançar de 50–75 organizações por meio de projetos financiados, restaurando entre 5 a 7 milhões de árvores em 12 a 20 mil hectares de áreas degradadas, beneficiando milhares de famílias em todo o Pará.  pessoas, além de atuar no fortalecimento da governança local, no monitoramento dos resultados e na sistematização de aprendizados.  

Na primeira fase, o Fundo Flora opera essencialmente com capital filantrópico, voltado à estruturação inicial do mecanismo, ao fortalecimento de capacidades locais e ao financiamento direto de projetos de restauração. Nessa etapa, o Fundo conta com apoio financeiro do Bezos Earth Fund, da AKO Foundation, e da The Coca-Cola Foundation.  

A próxima etapa busca consolidar essa base e criar as condições necessárias para atrair o investimento privado, essencial para a escala da restauração. Com essa abordagem, o Fundo Flora se posiciona como um mecanismo inovador e replicável para fortalecer cadeias produtivas sustentáveis na Amazônia, além de contribuir diretamente para os compromissos do Brasil no Acordo de Paris e na agenda climática global.  

Modelos inovadores de financiamento podem ser a chave para construir uma nova economia da restauração, consolidando a Amazônia como motor de uma nova economia verde, baseada na floresta em pé, na biodiversidade e nas pessoas que vivem dela.

*Este artigo é uma colaboração entre WRI Brasil e Sitawi Finanças do Bem e conta com autoria de:
Ana Beatriz Villela – Coordenadora de Investimento de Impacto na Sitawi
Ana Cecília Gonçalves – Gerente de Restauração no WRI Brasil
Eduarda Thurler – Coordenadora de Finanças e Investimentos no WRI Brasil
Victoria Bastos – Coordenadora de Projetos no WRI Brasil

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