Médio Juruá recebe curso de formação política para jovens lideranças do território

Iniciativa visa fortalecer habilidades da juventude para se tornarem agentes de transformação em suas comunidades.

No último mês, a comunidade de Bom Jesus, localizada na região do Médio Juruá (AM), na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari, recebeu mais de 100 participantes de diversas comunidades locais para participarem de uma formação política. Com objetivo de resgatar a identidade territorial e a luta pela garantia de direitos, que começou entre os anos 70 e 80 com os Movimentos de Educação de Base (MEB), o primeiro módulo do curso deu início à uma formação completa voltada para o desenvolvimento de jovens líderes. 

“O curso destaca a importância do empoderamento juvenil e do investimento em programas que capacitem os jovens a se tornarem agentes de mudança em suas próprias comunidades e territórios. É importante que compreendam o papel e as responsabilidades de uma liderança jovem na região amazônica e como podem ser catalisadores do engajamento cívico e político local”, declara Raimundo Cunha, presidente da Associação dos moradores Extrativistas da Comunidade São Raimundo (Amecsara) e um dos jovens líderes da região. 

O curso é uma iniciativa do Fórum Território Médio Juruá (Fórum TMJ), realizado pela Amecsara e pelo Instituto Juruá, organizações que fortalecem as cadeias produtivas e a articulação no território, e é apoiado por parceiros como: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Fórum Território Médio Juruá, Sitawi, SOS Amazônia e Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sutentável (GIZ).

Organização comunitária, democracia e cidadania

O primeiro módulo trouxe aos participantes uma imersão e possibilitou uma jornada de descoberta sobre a importância de uma liderança na organização social comunitária. Com foco em estabelecer as bases fundamentais para o engajamento cívico e político de jovens locais, a juventude foi incentivada a refletir sobre o seu papel como agentes de mudança em seus próprios ambientes e no contexto da Amazônia. No total, a formação prevê 10 módulos — três desses já possuem financiamento garantido. 

“O curso foi uma verdadeira inspiração para nós, jovens das comunidades. Aprendemos neste primeiro módulo não apenas sobre teoria da liderança, mas também sobre como podemos fazer a diferença em nossas próprias comunidades”, compartilha Mikaele Paixão Figueiredo, participante do curso e moradora da Comunidade São Raimundo RESEX Médio Juruá.

Fortalecimento feminino 

A equidade de gênero na liderança também foi foco de diálogos nesse primeiro módulo. Segundo representantes locais, a diversidade de gênero na liderança tem sido associada à uma tomada de decisão mais eficaz e à uma gestão mais ética e responsável. Com isso, cada vez mais as mulheres têm assumido papéis de gestoras. 

“Ao explorar temas tão importantes para o desenvolvimento de uma boa liderança, acredito que estamos capacitando as juventudes (homens e mulheres) a se tornarem líderes eficazes e comprometidos com o desenvolvimento sustentável de suas comunidades. Além de trazer o empoderamento das mulheres para ocupação de espaços de tomadas de decisões’’, ressalta Maria das Neves, associada da Associação das Mulheres Agroextrativistas do Médio Juruá (ASMAMJ). 

Inclusão de povos indígenas

O Médio Juruá abriga comunidades indígenas cujas tradições culturais e conhecimentos ancestrais desempenham um papel fundamental na preservação da biodiversidade e na sustentabilidade ambiental da Amazônia. Durante o curso, jovens líderes indígenas representantes dos Povos Kanamari, Deni e Kulina — que estavam participando do curso — tiveram a oportunidade de compartilhar com as demais pessoas as perspectivas de identidade territorial dos povos originários do território em uma mesa de debate. 

‘’Reconheço que estamos tendo nossas vozes ouvidas, e esses espaços de oportunidade são importantes para que a gente fale e ouça o quanto podemos fazer parte dessa transformação e o quanto podemos ser liderança, mas também sermos preparadas para lutar pela soberania, sendo pessoas com nossos direitos respeitados, nossos e dos nossos territórios’’, exprime Adriana Lima, agente de saúde indígena e representante do povo Kulina. 

O Território Médio Juruá

O Território Médio Juruá, que abrange duas unidades de conservação — Reserva Extrativista do Médio Juruá e Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari, três Terras Indígenas (TI Deni, TI Matatibem e TI do Taquara e uma área de acordo de pesca) —, traz no marco de sua história referências de luta pela soberania e qualidade de vida, com direito de permanência na floresta. Além das Terras Indígenas mencionadas, a TI Kanamari do Rio Juruá também participou e pode trazer sua perspectiva de ocupação do território. Essas histórias motivam a juventude local a dar seguimento na caminhada de empoderamento e liderança em prol da região.

Desde 2017 a Sitawi realiza a captação e gestão de aportes financeiros para o Programa Território Médio Juruá (PTMJ). Participa, também, do seu desenho e implementação programática em parceria com as organizações locais (AMAB, AMARU, AMECSARA, ASMAMJ, ASPROC,  ASPODEX, ACFRC e CODAEMJ). Na atual fase, junto com USAID/Brasil, a Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) e a Natura, o programa reúne projetos liderados pelo território, apoiando as cadeias de valor do pirarucu e de oleaginosas, além de ações de proteção territorial, governança, empreendedorismo feminino e juventude.

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