Mulheres que fortalecem as cadeias produtivas da Amazônia: conheça dona Neves

Por: Raissa Testahy com colaboração de Ronnayana Silva

No coração da Reserva Extrativista do Médio Juruá, na comunidade Novo Horizonte, muitas mulheres se destacam por suas histórias. Conversamos com Dona Neves, uma mulher que se destaca não apenas por sua história pessoal, mas por sua determinação em mudar paradigmas e fortalecer o papel feminino na região, localizada em Carauari (AM). Maria das Neves, 49 anos, é um exemplo vivo da transformação que tem ocorrido ao longo dos anos, e sua jornada é uma inspiração.

Dona Neves, desde cedo, testemunhou a sub-representação das mulheres nas atividades comunitárias. Ela compartilha como as mulheres eram frequentemente relegadas ao papel de cuidadoras, enquanto os homens assumiam as discussões e as decisões importantes. No entanto, Maria não se contentou com essa realidade e tornou-se uma das principais vozes em sua comunidade.

Encontrando suas vozes

Sua jornada começou cedo no roçado e produção de farinha. Ainda com 16 anos, já auxiliava na comercialização dos produtos comunitários e a levá-los da comunidade para acidade, juntamente com a Associação dos Produtores Rurais de Carauari (ASPROC) através do Comércio Ribeirinho.

“Um dos maiores desafios é que não tínhamos transporte próprio para transportar os produtos, então muita das vezes, perdíamos os produtos”, destaca. 

Ela também é ligada à Associação de Mulheres Agroextrativistas do Médio Juruá (ASMAMJ), da qual, em 2018, se tornou diretora — um papel que desempenhou com orgulho. Ela relembra os dias em que as mulheres tinham receio de participar ativamente das atividades coletivas e espaços de tomada de decisão. Com esforços contínuos, incluindo articulações e conversas, elas vem, cada dia mais, perdendo o medo e o receio na participação e encontrando espaços para suas vozes.

A motivação de dona Neves para seu engajamento na organização veio em parte da luta de seu pai, sr. Elson Pacheco, um dos fundadores da ASPROC, uma batalha marcada por ameaças e resistência. O sr. Elson é uma das principais lideranças da região e contribuiu ativamente para o reconhecimento da RESEX do Médio Juruá. Atualmente, dona Neves é uma das diretoras da ASPROC. 

“Meu pai era muito explorado pelos [ditos] patrões. Ele lutava muito, era ameaçado de morte por defender a classe pobre, eu vi todo aquele sofrimento dele. Nós não poderíamos mais viver assim. Daí entendi a importância da gente lutar pelos nossos direitos”, destaca Maria. 

A presença feminina no agroextrativismo

Entre os momentos marcantes em sua trajetória, estão as assembleias da ASMAMJ, onde as mulheres têm espaço para expressar suas dificuldades e contribuir para o planejamento das ações da associação. 

“É muito importante para mim quando nós mulheres somos convidadas para outros lugares, outras comunidades, para debater e discutir melhorias de vida para outras mulheres. Temos a oportunidade de representar nossa comunidade e ajudarmos umas às outras”, ressalta a antiga diretora. 

Hoje em dia ela atua diretamente com as cadeias produtivas da farinha, açaí e na produção de biocosméticos. 

Sobre a ASMAMJ

A ASMAMJ foi criada em 2004 e atua promovendo a união, desenvolvimento social e financeiro das  mulheres na região, levantando o debate da igualdade de gênero e questionando posturas que consideram opressoras. A associação é uma das organizações implementadoras do Programa Território Médio Juruá (PTMJ), coordenado pela Sitawi. 

As principais atividades da ASMAMJincluem ações para bem-estar e saúde da mulher, capacitações para desenvolvimento de habilidades, e fortalecimento dos polos produtivos de bionegócios da região. As ações para trazer renda são chamadas de polos de produção – biocosméticos, biojoias com escamas, óleo de andiroba e óleo essencial.  

Além de seu compromisso comunitário, dona Nevesé uma mãe dedicada, com sete filhos e cinco netos. Seu desejo para as futuras gerações de mulheres é que elas sejam vozes fortes em defesa de sua comunidade e de seu território , e que representem o Médio Juruá em todas as esferas da vida social, política e econômica.

A história de Maria das Neves revela o poder da determinação individual e da união comunitária para criar mudanças significativas em prol da equidade de gênero. 

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