Nos últimos anos, os brasileiros precisaram se acostumar com uma sequência cada vez mais frequente de notícias sobre eventos climáticos extremos. Chuvas intensas, enchentes, deslizamentos e secas prolongadas passaram a fazer parte da rotina e dos noticiários. O problema é que, enquanto os desastres se intensificam, o financiamento disponível para responder a eles ainda segue, muitas vezes, uma lógica improvisada.
Assistimos a isso de forma dramática nas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Milhões de pessoas foram afetadas, infraestruturas inteiras foram destruídas, cidades ficaram isoladas e os prejuízos econômicos chegaram a bilhões de reais. A mobilização de recursos aconteceu, mas principalmente depois da tragédia, por meio de pacotes emergenciais, campanhas de doação e programas de reconstrução.
Pouco tempo depois, enquanto ainda estamos lidando com os impactos daquele desastre, outro episódio reforçou o mesmo padrão: no início deste ano, chuvas intensas atingiram a Zona da Mata mineira, provocando enchentes e deslizamentos. Mais uma vez, milhares de pessoas foram afetadas, famílias perderam suas casas e a mobilização financeira veio sobretudo após o impacto.
Essa nova realidade mostra que o sistema de financiamento ainda não foi estruturado para lidar com tamanha frequência de desastres.
E esse desafio não é apenas brasileiro. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, os países em desenvolvimento precisam entre US$ 310 a US$ 365 bilhões por ano até 2035 para financiar medidas de adaptação climática. Mas os recursos disponíveis hoje estão muito abaixo desse valor: a ONU estima que as necessidades de financiamento para adaptação são de 12 a 14 vezes maiores do que os fluxos atuais.
Essa diferença entre necessidade e recursos disponíveis, na prática, significa cidades menos preparadas para enfrentar eventos extremos, comunidades mais expostas a riscos e governos que precisam reagir de forma emergencial e despreparada sempre que uma nova crise acontece.
Isso porque seguimos operando em um modelo essencialmente reativo. Ou seja, espera-se o desastre ocorrer para mobilizar recursos. Esse padrão não apenas aumenta os custos de reconstrução, como também amplia desigualdades, já que as populações mais vulneráveis são sempre as mais expostas aos impactos.
Por isso, é cada vez mais evidente a necessidade de diferentes mecanismos de financiamento para emergências climáticas. Fundos estruturados com esse propósito permitem respostas mais rápidas, apoio imediato às comunidades afetadas e maior organização nos processos de reconstrução.
Além de agilizar a resposta aos desastres, esses instrumentos ajudam a coordenar diferentes fontes de recursos em torno de um mesmo objetivo. Quando bem estruturados, mecanismos financeiros conseguem alinhar recursos públicos, privados e filantrópicos e direcioná-los com rapidez para onde são mais necessários.
Trabalhando na Sitawi Finanças do Bem, acompanho de perto como recursos filantrópicos podem contribuir para respostas a crises socioambientais. Ao mesmo tempo, fica evidente que doações pontuais, mobilizadas de forma emergencial após um desastre, são muito bem-vindas, mas não podem ser a via principal para lidar com a escala e a frequência dos eventos climáticos extremos que o país vem enfrentando.
Se os efeitos das mudanças climáticas continuarem avançando em ritmo acelerado, as formas de financiar a resposta também precisam evoluir com a mesma agilidade. Esse é um passo necessário para fortalecer a capacidade do país de reagir e lidar com um cenário climático cada vez mais desafiador.
Fernanda Pessoa
Gerente Sr. Gestão de Filantropia Sitawi Finanças do Bem