No interior do Maranhão, no município de Montes Altos, está localizada a Terra Indígena (TI) Krikati. Demarcado desde 2004, o território vem sofrendo constantes ameaças, como invasões de fazendeiros e madeireiros, além do avanço do desmatamento – intensificado a partir de 2019.
Realizada em parceria com a Associação Comunitária Wewetyj, da Aldeia Recanto dos Cocais, e com o coletivo de mulheres da comunidade, a iniciativa “Mulheres como Agentes Ambientais no Monitoramento da Terra Indígena Krikati”, implementada pela Sitawi, vem ganhando força para trazer transformações neste cenário.
No último mês, o território recebeu uma oficina de agroecologia com duração de três dias, reunindo mulheres indígenas Krikati e Guajajara. A atividade combinou teoria e prática, valorizando saberes tradicionais já presentes no cotidiano dessas mulheres e ampliando seus conhecimentos. Sob a facilitação da educadora popular Vanusa Babaçu, foram construídas duas unidades de compostagem, que irão fertilizar os quintais agroecológicos da aldeia.

“Estamos trabalhando a agroecologia com as mulheres, reforçando que elas já praticam isso há muito tempo. Queremos aprimorar os quintais e canteiros e fortalecer o reconhecimento da importância dos elementos naturais: terra, água e plantas para o bem-viver nos territórios indígenas”, afirma Vanusa.
Os efeitos das mudanças climáticas também preocupam a comunidade. Períodos de seca mais longos aumentam o risco de queimadas e trazem incertezas para o futuro. Diante disso, o projeto busca apoiar as mulheres indígenas para compreenderem melhor esses impactos e aprenderem formas de mitigá-los.
“Eu não sei ler, nem escrever, mas observo muito. As coisas estão mudando demais. Não chove mais como antigamente e os rios estão secando como nunca vi. Precisamos ouvir os mais velhos”, comenta a moradora da aldeia, Maria Guajajara.
Além disso, um dos principais objetivos do projeto é fortalecer e ampliar as capacidades de monitoramento, proteção e valorização das áreas importantes da TI Krikati sob aspectos culturais, ecológicos e sociais. Entre as ações em andamento, estão os quintais agroecológicos, que reúnem plantas frutíferas, ervas medicinais e hortaliças. Além de promover a segurança alimentar, eles impactam diretamente cerca de 25 famílias da Aldeia Recanto dos Cocais e, indiretamente, aproximadamente 1.300 pessoas em todo o território.
Embora os quintais já façam parte da rotina da comunidade, há um desejo de expandi-los e enriquecer a produção com espécies nativas que se tornaram escassas.
“Muitas mulheres de outras aldeias vieram participar e aprender. Elas sempre pedem mais oficinas e cursos dentro do território. Eu mesma estou aprendendo muito, é minha primeira vez em uma oficina de agroecologia”, relata Rosângela Krikati, presidente da Associação Wewetyj.

Além das atividades de agroecologia, as participantes realizaram uma expedição durante alguns dias por diferentes aldeias do território, reforçando a importância de reconhecer, conservar e monitorar a TI Krikati.
“Participar da expedição foi uma vivência muito gratificante. Conhecer e reconhecer o território, junto com o coletivo de mulheres Krikati Guajajara e suas famílias, permitiu compreender a importância da coletividade para a manutenção dos saberes tradicionais na Terra Indígena Krikati. É nesse reconhecimento territorial que nasce a força para protegê-lo e garantir que continue sendo conservado pela própria comunidade”, ressalta Ana Quelly Anacleto, analista de Finanças de Conservação e Clima na Sitawi.
Com iniciativas como essa, as mulheres indígenas seguem demonstrando protagonismo na defesa de seus territórios e no fortalecimento de práticas sustentáveis que unem tradição, saberes ancestrais e inovação comunitária.
A Sitawi participou de um extenso processo de seleção do Floresta+ Amazônia, junto com diversas organizações do Brasil, para atuar em parceria com organizações de base comunitária nos estados da Amazônia Legal. A iniciativa é realizada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), com o apoio do Fundo Verde para o Clima (GCF).