A COP 16 da Biodiversidade, realizada em Cali, e a COP 29 do Clima, sediada em Baku, compartilharam o mesmo desafio central: o financiamento. Estivemos presentes em ambas e voltamos com insights valiosos na bagagem. Vamos compartilhar tudo com você. Vem com a gente?
COP 16: como financiar a conservação e a restauração da biodiversidade?
Dois anos atrás, na COP 15 de Montreal, os 196 países signatários da Convenção de Diversidade Biológica (CBD, na sigla em inglês) firmaram o Marco Global da Biodiversidade (GBF, na sigla em ingês), com compromissos ambiciosos de deter e reverter a perda global de biodiversidade, incluindo ampliar a proteção de 30% das áreas terrestres e marinhas até 2030. Em Cali, o desafio era responder: como e com que dinheiro?
O financiamento dominou os debates e expôs mais uma vez o cabo de guerra entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento. O impasse foi tão significativo que a reunião precisou ser suspensa por falta de quórum e só será retomada entre os dias 25 e 27 de fevereiro, em Roma. Enquanto isso, permanecem dúvidas se será aprovado um novo mecanismo para financiar essas iniciativas. O Brasil, por exemplo, defende a criação de um novo fundo para a biodiversidade, já que o atual, fica abaixo do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), uma estrutura do Banco Mundial, e lida com a baixa representatividade de economias em desenvolvimento – que concentram a maior parte da biodiversidade do planeta.
Enquanto isso, vamos às boas notícias!
Avanços e conquistas da COP 16
- Participação de povos indígenas, comunidades locais e afrodescendentes: foi aprovado um órgão subsidiário que garante a participação permanente de indígenas e comunidades locais nas decisões da CDB. Além disso, pela primeira vez, o papel das comunidades afrodescendentes – incluindo os quilombolas no Brasil – na conservação e uso sustentável da natureza foi oficialmente reconhecido. Esse avanço teve forte contribuição do Brasil e reforça oportunidades para aprofundar os aspectos sociais ligados à conservação e o clima na futura COP 30, que será realizada no ano que vem, no Brasil.
- Fundo Cali para repartição de benefícios: um dos temas mais esperados foi a repartição de benefícios gerados pelo uso de recursos genéticos e da correspondente informação de sequência digital (DSI, na sigla em inglês). O fundo permitirá que populações indígenas e comunidades locais sejam devidamente compensadas pelos seus serviços de conservação e compartilhamento de saberes tradicionais, com metade dos recursos sendo direcionada a elas.
- Por que isso importa? Empresas que utilizam o patrimônio genético da biodiversidade de um país devem remunerá-lo, conforme o princípio da Repartição de Benefícios. No passado, indústrias como a farmacêutica e a cosmética baseavam suas pesquisas em recursos físicos, como açaí ou guaraná, e os acordos internacionais refletem essa realidade. Porém, o avanço da digitalização, com o uso de sequências genéticas armazenadas em bancos de dados globais, trouxe desafios não previstos nesses acordos. Na prática, o fundo servirá para compartilhar os benefícios de um determinado conhecimento com quem o originou.
- Setor privado em destaque: A presença marcante de empresas brasileiras em Cali foi uma das surpresas da conferência. Embora os números ainda sejam modestos em comparação às COPs do Clima, a participação crescente do setor corporativo e financeiro sinaliza que os riscos e oportunidades ligados à biodiversidade estão ganhando espaço nas agendas empresariais.
- Por que essa compreensão é essencial? Compreender os impactos econômicos da perda de biodiversidade e a dependência dos negócios de recursos naturais é mais do que uma necessidade estratégica — é uma condição para a sustentabilidade dos próprios negócios. É urgente que a natureza seja integrada aos balanços financeiros das empresas, impulsionando uma mudança de paradigma na forma como seu valor é percebido e mensurado.
A COP 16 reforçou o quanto clima e biodiversidade são agendas indissociáveis. Presenciar as discussões sobre a importância de ações locais de biodiversidade e o papel central dos povos indígenas e comunidades locais nesse processo é fundamental para o nosso trabalho. Na Sitawi buscamos justamente fortalecer esses grupos e criar soluções que respeitem e integrem seus valores, conhecimentos tradicionais e visões de mundo, promovendo impacto positivo de forma sustentável e justa.
Heitor Dellasta, Especialista de Finanças de Conservação e Clima da Sitawi.
Com isso em mente, embarcamos direto para Baku, onde a agenda climática tomou o centro do palco.
COP 29: a COP do Financiamento
Se Cali destacou os desafios de financiar a preservação da biodiversidade, Baku provou que o dinheiro é realmente o principal entrave nas negociações. Foi, mais do que nunca, a “COP do Financiamento”. E, daqui para frente, todas deverão ser.
Após intensos debates, ficou definido que o mundo desenvolvido terá até 2035 para mobilizar US$ 300 bilhões anuais para apoiar as nações mais vulneráveis, enquanto o esforço coletivo busca atingir a meta ambiciosa, mas necessária, de US$ 1,3 trilhão por ano em finanças climáticas no mesmo período. Essa decisão reflete a urgência de combinar diferentes fontes de recursos e expandir parcerias globais para viabilizar essa transição.
Um chamado global para ação
O texto aprovado conclama todos os atores globais — empresas, governos, instituições financeiras e sociedade civil — a unir forças. A meta é clara: ampliar o financiamento destinado aos países em desenvolvimento por meio de uma combinação de recursos públicos, privados, filantrópicos, bilaterais e multilaterais. Também será crucial explorar fontes alternativas de financiamento, como mecanismos financeiros inovadores que atraiam novos investimentos para a agenda climática.
Embora os países desenvolvidos tenham assumido a liderança nesse esforço, comprometendo-se com a mobilização de pelo menos US$ 300 bilhões anuais, o sucesso dessa meta dependerá de uma ampla cooperação global. Somente com ações integradas será possível transformar essa promessa em uma realidade capaz de enfrentar os desafios climáticos com eficácia e equidade.
Um marco no mercado de carbono
O sucesso ficou mesmo pra implementação do Artigo 6 do Acordo de Paris, que regulamenta e incentiva o mercado de carbono. Mais do que um simples mecanismo econômico, o mercado de carbono representa uma estratégia essencial para alinhar as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) com o desenvolvimento sustentável. Esse sistema promove a colaboração entre países e o setor privado, permitindo que nações e empresas troquem créditos de carbono como parte de seus compromissos climáticos.
Apesar da aprovação, a adoção dessas regras não pode sinalizar a conclusão dos esforços, mas deve servir como ponto de partida para garantir definições sobre integridade dos ecossistemas e defender as salvaguardas sociais e ambientais no desenho e implementação de projetos de carbono. Sem essas melhorias, a credibilidade dos mercados de carbono como uma ferramenta significativa para lidar com as mudanças climáticas permanece em questão.
De Baku a Belém: Caminhos para a COP 30
Com a COP 29 concluída, todas as atenções se voltam para a próxima etapa: a COP 30, que será realizada em Belém, no Brasil. Este evento traz consigo grandes expectativas de avançar na agenda de implementação de soluções práticas para destravar o financiamento climático, fortalecer mecanismos de cooperação internacional e promover uma transição energética justa e inclusiva.
Como o país com a maior biodiversidade do planeta, o Brasil terá a oportunidade de posicionar as sinergias entre clima e biodiversidade no centro das negociações globais. A urgência de tratar essas agendas de forma integrada será essencial para garantir o futuro sustentável e justo do planeta, destacando o papel fundamental das soluções baseadas na natureza (sbn).
Além disso, a importância dos povos indígenas e das comunidades locais será inegável nesse debate. Seus conhecimentos tradicionais e práticas de conservação oferecem exemplos concretos de como alinhar desenvolvimento sustentável à conservação ambiental. Garantir que suas vozes sejam ouvidas e incorporadas nos processos de tomada de decisão será um marco essencial para o sucesso da COP 30.
Com sua liderança no debate climático e sua rica biodiversidade, o Brasil tem a chance de construir uma ponte sólida entre os avanços conquistados em Baku e os compromissos que deverão ser firmados em Belém, passando pelo que foi decidido em Cali. O desafio está posto, mas as oportunidades para transformar ideias em ação nunca foram tão promissoras.
Transição para um futuro sustentável e justo
A Sitawi está preparada para desempenhar um papel estratégico nesse processo. Com ampla experiência no desenvolvimento de mecanismos financeiros inovadores, conectamos atores públicos, privados e filantrópicos para viabilizar soluções concretas aos desafios ambientais e sociais mais urgentes. Nossa capacidade de compreender diferentes contextos e oferecer soluções personalizadas nos permite atender às necessidades específicas de cada parceiro, sempre com foco em impacto positivo.
Entendemos que clima e biodiversidade são agendas interligadas, especialmente nos países em desenvolvimento, e é com base nessa sinergia que direcionamos nosso trabalho. Desenvolvemos soluções integradas que atendem às necessidades globais e locais, contribuindo para impactos duradouros e transformadores.
Os financiamentos do clima e da biodiversidade tornaram-se pilares centrais para viabilizar qualquer ação de transformação real. Em Baku, ficou evidente que a colaboração entre atores públicos, privados e filantrópicos será essencial para alcançar as metas globais. Na Sitawi, trabalhamos para criar mecanismos financeiros que conectem essas partes, traduzindo compromissos em ações concretas.
Fernando Campos, Gerente de Finanças de Conservação e Clima da Sitawi.
Com expertise na gestão e direcionamento de recursos financeiros para iniciativas que realmente atuam com a conservação da biodiversidade e adaptação e mitigação das mudanças climáticas, atuamos como uma ponte entre financiadores e iniciativas locais, garantindo que os recursos cheguem a quem realmente precisa e sejam usados de forma eficaz e transparente.
Através de parcerias estratégicas que reúnem recursos governamentais, privados e filantrópicos, criamos soluções como blended finance, fundos de conservação, arquiteturas financeiras para projetos de carbono e biodiversidade, fundos rotativos e comunitários, mecanismos de pagamento por serviços ambientais (PSA), títulos de impacto e outras ferramentas financeiras inovadoras. Cada iniciativa é desenvolvida sob medida para maximizar o impacto socioambiental e financeiro positivo.
Enquanto o mundo se volta para Belém e os desafios da COP 30, a Sitawi continua a tecer caminhos que unem clima, biodiversidade e mudanças transformadoras. Estamos prontos para transformar desafios em oportunidades — e juntos, construir um futuro mais sustentável e justo.