Salvando Vidas

(Re)ação da filantropia 

Salvando Vidas

(Re)ação da filantropia 

Salvando Vidas: a (re)ação da filantropia durante a Covid-19

Por: Raissa Testahy

O ano de 2020

Quem diz isso é o Wendell Bornéo, integrante da equipe de Gestão de Filantropia da Sitawi. Em março de 2020, ele estava no escritório da organização quando recebeu a notícia que, a partir do dia seguinte, todos trabalhariam de casa por 15 dias. 

No entanto, o que eram 15 dias, tornaram-se três anos. No dia 11 de março de 2020, a Covid-19 foi caracterizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma pandemia. Em poucos meses, foi necessário entender como continuar trabalhando, estudando e vivendo em meio à crise sanitária. 

Máscaras N-95, álcool em gel, higienização de compras e produtos. No mundo todo, 2020 foi marcado por muito medo e a ausência de encontros.

No entanto, no Brasil, a pandemia escancarou ainda mais as desigualdades sociais. Estudos indicam que, além da idade e da presença de comorbidades, a situação socioeconômica das populações aumentou o risco de contrair a doença: o que tornou as pessoas mais pobres as principais vítimas do vírus.

Foi neste cenário que, em abril de 2020, durante o ápice da pandemia, foi lançada a campanha Salvando Vidas, para fortalecer os profissionais de saúde de hospitais públicos diariamente expostos ao vírus.  O programa foi uma iniciativa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em parceria com a Sitawi, Bionexo e Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos (CMB). 

O Salvando Vidas teve atuação nacional. Nesta reportagem você confere a história de duas localidades específicas: Manaus e Rio de Janeiro.

Em 2020, o Programa beneficiou mais de 779 instituições filantrópicas e hospitais públicos — que atendem o Sistema Único de Saúde (SUS) em todas as regiões do país — com a compra de EPIs (equipamento de proteção individual), como máscaras, luvas, toucas, aventais e álcool em gel.

Guerra contra o vírus

Doações para o Hospital Beneficente Santa Helena, Cuiabá (MT)​

Em meados de 2020, a falta de insumos e EPIs resultou em uma alta procura e preços exorbitantes no mercado. Muitos hospitais já não tinham máscaras N-95, entre outros EPIs, suficientes para proteção dos profissionais de saúde. 

“O hospital lotado, a emergência lotada, falta de medicamentos e insumos: tudo parecia uma operação de guerra”, declara Márcio Nunes, Diretor Administrativo do Hospital São Francisco na Providência de Deus — uma das entidades filantrópicas contempladas pelo projeto. O profissional comenta que a primeira doação chegou no momento mais alarmante do hospital.

O HSF foi um hospital muito atuante no enfrentamento da pandemia. Em março de 2020 fizemos uma parceria com outras instituições para oferecer leitos para pacientes SUS. Só no hospital tivemos mais de 100 leitos de Covid”, ressalta Nunes.

 

O que são hospitais filantrópicos?

São instituições privadas, porém sem fins lucrativos, que possuem contrato com o sistema público para prestar atendimento aos pacientes do SUS. Pelo menos 60% dos atendimentos oferecidos pelos hospitais filantrópicos são destinados, obrigatoriamente, ao SUS. 

O ano de 2021

A chegada das novas variantes e o avanço da vacinação

Em janeiro de 2021, o mundo todo estava olhando para o Amazonas. Desta vez, o estado que carrega a maior floresta do mundo vivia uma calamidade pública: a falta de oxigênio nos hospitais em Manaus. O estado foi o primeiro do país a sofrer com os impactos da segunda onda da Covid e configurou-se em um dos momentos mais tristes da pandemia.

A soma de todas as crises: econômica, sanitária e política resultou em uma corrida por cilindros de oxigênio por parte da população. Diante do aumento de casos e números de mortos de Covid-19, o BNDES e seus parceiros na iniciativa decidiram reabrir a captação de doações ao programa. Na segunda fase do Salvando Vidas, eram recebidas doações apenas de pessoas jurídicas, em valores a partir de R$ 100 mil. 

Nesta fase, foram entregues cilindros de oxigênio em Manaus, divididos entre os hospitais Delphina Aziz (50 unidades), 28 de Agosto (30), Getúlio Vargas (10) e Platão Araújo (10). 

Além disso, o Matchfunding Salvando Vidas doou 20 usinas de oxigênio para hospitais brasileiros. As doações apoiam o reforço estrutural das unidades de saúde beneficiadas, necessário ao auxílio no tratamento da Covid-19 e sequelas associadas à doença, deixando, ainda, um legado para a população dessas localidades.

 

Entregas de cilindros em Manaus - fotos: Bruno Kelly

Doses de esperança

Como canta Lulu Santos, “Nada do que foi será; de novo do jeito que já foi um dia; tudo passa, tudo sempre passará”. No mesmo mês marcado pelo desespero em Manaus, na cidade de São Paulo começamos a ter esperança por dias melhores. Mônica Calazans, de 54 anos, mulher negra e enfermeira, foi a primeira pessoa a ser imunizada no país.  

Em dezembro do mesmo ano, o Brasil já tinha 80% de sua população vacinada com as duas doses da vacina contra a Covid-19. Vacina no braço e máscara no rosto, mais um ano pandêmico se encerrava, com tristes marcos, mas sobretudo com esperança e muita solidariedade.

O ano de 2022

Da selva de pedra à remota floresta

Longas distâncias, dificuldade de acesso, transportes e comunicações: levar atendimento médico e suprimentos às comunidades ribeirinhas e indígenas da Amazônia já não é uma tarefa fácil em épocas normais. Durante a pandemia de Covid-19, o desafio foi dobrado. 

É a oeste do Estado do Pará, mais especificamente entre a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns (Resex) e a Floresta Nacional dos Tapajós (Flona), que se localiza a única via de locomoção dos povos ribeirinhos: o Rio Tapajós. Ele é principal caminho para transporte e comunicação das comunidades ribeirinhas dos rios Amazonas, Tapajós e Arapiuns, localizadas nos municípios de Santarém, Aveiro e Belterra.

Levando atendimento em saúde, kits de higiene e prevenção da Covid-19, o barco hospital Abaré II, cujo nome significa “amigo” em tupi guarani, foi reformado com recursos da campanha Salvando Vidas entre 2021 e 2022.

Além da revitalização estrutural, serviços de pintura, instalação de equipamentos náuticos, de comunicação e segurança, a embarcação ganhou novos e modernos equipamentos hospitalares e EPIs.   

Isso foi possível graças a uma soma de esforços, em grande parte apoiada com recursos do Projeto Saúde e Alegria através de seus parceiros como o Matchfunding Salvando Vidas, a Fundação OAK, Takeda, e contrapartidas da Prefeitura de Santarém e de emenda parlamentar do Deputado Airton Faleiro para aquisição de equipamentos. Além do papel essencial de organizações sociais, lideranças comunitárias e sindicais e movimentos de populações quilombolas e indígenas.

“Ver o impacto da Sitawi e dessas iniciativas de perto é muito significativo, porque me faz compreender a importância do meu trabalho e de todas as outras organizações envolvidas em prol de um objetivo comum: construir um mundo melhor para as pessoas”, ressalta Victor Ribeiro, gerente de Gestão de Filantropia da Sitawi.

Priscilla Batista, analista responsável pelos processos do Salvando Vidas, se emociona ao relembrar a visita à embarcação. “Estar lá, ver o barco, me comoveu muito. As pessoas realmente precisavam de atendimento. Foi muito gratificante enxergar a importância do meu trabalho.”

Desafios e inovação

Mesmo com o cenário repleto de incertezas e desafios, tivemos um crescimento exponencial de pessoas colaboradoras e conseguimos desenvolver soluções para mitigar o impacto da doença. Ao pedir uma palavra que defina o Salvando Vidas para as pessoas entrevistadas, todas destacaram a inovação. 

“A pandemia foi se desdobrando e o projeto foi se inovando e se modulando para atender a necessidade da sociedade. Na reta mais final, começamos a comprar refrigeradores para as vacinas. Como faz a compra de refrigerador? Como faz a compra de usinas de oxigênio? Foi tudo feito rapidamente e com alto nível de compliance e transparência”, ressalta Wendell Bornéo. 

 “O projeto nasce com um desenho e a gente vai redesenhando ao longo do tempo. Sempre atentos aos normativos do BNDES e buscando agilidade. Foi bastante desafiador”, conta Sandro Ambrosio, gerente no departamento do Complexo Industrial e Serviços de Saúde do BNDES. 

Foi difícil não se sentir submergido por tantas notícias tristes durante a pandemia. De domingo a domingo, o que víamos na televisão pareciam cenas de um filme de ficção cientifica. E para aqueles que trabalhavam diariamente na mitigação dos efeitos da pandemia, foi ainda mais complicado.

 “A gente viveu intensamente isso. Todo relatório que produzíamos, por exemplo, a gente tinha que reportar a situação daquela localidade que iria receber as doações. Emocionalmente era muito difícil, a gente trabalhava em um projeto que ajudava a reduzir o número de mortos, então o tempo era vida”, relembra Sandro. 

Na corrida contra o tempo para arrecadar os recursos e fazer as aquisições com os fornecedores, para depois entregar em hospitais do país todo, foi necessária agilidade e flexibilidade. “Pessoalmente, todos estavam numa situação delicada com familiares e com medo da doença. Trabalhar em um projeto vinculado à pandemia e acompanhar as taxas de mortalidade o tempo todo e a situação em cada lugar era perceber que quanto antes a gente fizesse o nosso trabalho, logo os EPIs chegariam naquelas localidades”, destaca Carla Vilela, analista do BNDES responsável pelo Salvando Vidas.

mobilizados
+ R$ 0 milhões
de EPIs
+ 0 milhões
de pessoas impactadas
+ 0 milhões
hospitais contemplados
+ 0 mil

Poder transformador: a união entre o público, o privado e a sociedade civil

Os resultados positivos da campanha foram gerados pela união entre diversas partes. Mesmo com o fim do tempo mais difíceis (em maio deste ano, a OMS decretou fim da pandemia de COVID-19), permanece o legado para os beneficiários e envolvidos da ação. 

Os recursos permitiram a compra de quase 80 milhões de Equipamentos de Proteção Individual, entre máscaras, luvas, toucas, aventais e álcool em gel, para profissionais de saúde e pacientes. Com a crise de oxigênio em diversas regiões do Brasil, o projeto direcionou esforços também para a aquisição de cilindros e usinas. Ao todo, mais de 9 milhões de pessoas por todo o Brasil foram impactadas. 

“Salvando Vidas ficará marcado na nossa vida profissional e pessoal para sempre. É um projeto de muito orgulho, que ganhou prêmios, sendo reconhecido pela importância que teve. Foi o momento mais delicado da saúde pública brasileira, e por mais que vivêssemos toda aquela tensão, tínhamos a sensação de estar ajudando e fazendo nossa parte”, comenta Carla.

No segundo semestre deste ano o projeto se encerra e a última doação será entregue. O que permanece é o legado e o sentimento de dever cumprido.

Conectando
o Impacto

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